Rio, 15 (AE) - No show "As Cidades", que Chico Buarque faz no Palace, um dos momentos mais surpreendentes - uma das duas músicas não assinadas pelo compositor - é quando ele canta "Capital do Samba", à guisa de introdução ao grupo de músicas em que faz exaltação à Mangueira. Durante anos, até pesquisadores de música popular tinham dúvidas sobre a autoria desse samba, que Chico ouvia quando criança. Mas o autor está vivo, compondo e declarando seu amor à escola verde e rosa. É o pedreiro aposentado José Ramos, de 86 anos, que vive no bairro de Cachambi, na zona norte da cidade, depois de passar a metade da vida no Morro da Mangueira, onde dá nome à rua. Lá, qualquer criança sabe onde fica a Travessa Zé Ramos.
É um sambista bissexto. Ao contrário de outros músicos da verde e rosa, que nasceram no morro ou foram para lá ainda crianças, Zé Ramos começou a frequentar a escola e a compor aos 23 anos, quando se casou com a pastora Nilcéia, ela sim, nascida e criada na Mangueira e amiga dos fundadores da escola. Um amor de romance, que resultou em quatro filhos, quatro netos, seis bisnetos e dura até hoje. Se demorou até começar a compor, Zé Ramos fez muitos sambas que eram ouvidos só aos sábados. "Como eu tinha outra profissão, era empregado da fábrica de doces Confiança, não tinha tempo nem muito empenho para divulgar meus sambas", conta. "E, também, como era diretor de Patrimônio da escola, não achava certo tomar o lugar de outros autores que queriam cantar suas músicas durante os ensaios". Modéstia - O fato de "Capital do Samba" ser pouco conhecida tem a ver com essa modéstia. Zé Ramos fez a música para o carnaval de 1938, mas não foi atrás de quem gravasse. Só dois anos depois, o cantor Gilberto Alves ouviu-a, numa apresentação da escola em São João do Meriti, na Baixada Fluminense, e quis logo gravar. Foi Cartola, a quem Zé Ramos só chama de Agenor, quem fez as apresentações. "Ele ficou tão encantado que bateu na minha porta de madrugada, perguntou se a música já tinha dono e, quando eu disse que o samba era só da escola, pediu para gravar". Foi um sucesso relativo, que o menino Chico Buarque ouvia no rádio.
Também diferentemente de outros compositores, Zé Ramos não deu continuidade ao seu trabalho. "Havia muita disputa entre os autores, que pagavam caro para estar em evidência", diz ele. "Como eu tinha o meu trabalho e não dependia do samba, não usava esses recursos e não aparecia muito". Fiel aos seus princípios ele até foi convidado a dividir o samba "Quando Sonho com Ela" com Cyro Monteiro. "Ele disse que gravava, mas tinha de entrar como parceiro", lembra. "Sei que muita gente vendeu música, até o Agenor, mas eu não achava isso certo".
Parceira por acaso, embora não no papel, foi a cantora Clementina de Jesus, que gravou "Nasceste de uma Semente", incluída no lendário show "Rosa de Ouro", nos anos 60. "Ela ouviu só a primeira parte e improvisou a segunda, mas não pediu parceria", ressalta ele, que sempre fez música sozinho, de ouvido. "Só sei tocar instrumentos de percussão, apesar de ter querido muito aprender violão", explica. "Mas guardo as músicas na cuca e escrevo o nome num caderno porque, pelo título
eu lembro a melodia". Inspiração - Certos sambas de Zé Ramos têm as melodias cadenciadas de Cartola e contam histórias de amor fracassado como os de Nelson Cavaquinho. Mas ele conta que nunca se inspirou na própria vida. "A gente compõe quando está sonhando, pensando na escola ou nos personagens que inventa", ensina. Só há poucos anos ele fez um samba, "Morrendo aos Poucos", para sua Nilcéia, que ficou paralítica há 12 anos, obrigando-o a mudar do Morro da Mangueira para Cachambi, região mais plana na zona norte.
Além dela, só Cartola mereceu música. "Foi quando ele se mudou para Jacarepaguá e eu pedi para voltar", lembra. "Ele não se interessou muito em ouvir e o samba está inédito". Como quase uma centena de outros sambas que ele ainda canta na quadra da escola, com os outros 40 integrantes da velha-guarda da Mangueira. "É como a Academia Brasileira de Letras, só que de sambistas", conclui.

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