Zé Ramalho chega ao 'meio do caminho'
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segunda-feira, 05 de outubro de 2009
Adriana Del Ré<br> Agência Estado 
A voz do apocalipse. O Bob Dylan do agreste. O último profeta. Todos eles são o mesmo paraibano de Brejo do Cruz, José Ramalho Neto, que acaba de completar exatos 60 anos neste último sábado. Da infância difícil no sertão, foi resgatado pelo avô, que assumiu o papel de pai quando o legítimo morreu afogado num açude. Mais tarde, o avô foi eternizado na mítica ''Avôhai'' pelo neto músico que desistiu de ser o neto doutor. Zé Ramalho chegou a cursar Medicina, porém, no segundo ano, percebeu que estava predestino à música. São mais de 40 anos de carreira e ele não para. Atualmente, está em estúdio participando da trilha sonora do filme ''O Bem Amado''.
Como é a trilha de O Bem Amado?
Canto um dos temas, ''Carcará'', de Zeca Diabo. Também estou participando de vários lançamentos do selo Descobertas, em que interpreto algumas canções dos Beatles.
Você disponibilizaria todo um disco seu na internet e deixaria que os internautas pagassem quanto quisessem?
Não faria isso, até porque a arrecadação é a mínima possível. Não acho justo disponibilizar frações de um disco. Um CD é um trabalho completo, não pode ser pinçado, porque o ouvinte não atingirá o conceito amplo e total que o artista imprimiu nele.
Até que ponto a cocaína foi catalisadora de sua criatividade e em que momento passou a ser prejudicial?
No início, era envolvente, o organismo estava recebendo essa ''invasão alienígena'' e era manifestada em músicas, como ''Frevo Mulher'', ''Galope Rasante'', ''A Terceira Lâmina''. Mas, com o passar do tempo, ela passou a confundir e me escravizar.
Para você, como foi aquele período do projeto Grande Encontro, com Elba, Alceu Valença e Geraldo Azevedo? Chegou-se a dizer que houve um conflito de egos.
O início do Grande Encontro foi histórico para a música brasileira. A reunião dos quatro grandes nomes desta geração de nordestinos resultou num show de altíssimo nível, que foi registrado e entrou para a história da MPB. A sequência do Grande Encontro foi o que causou um grande desencontro. É natural que os egos aflorem e é natural que tivesse um fim também.
Quais canções suas você acredita que não tiveram o justo sucesso?
Não tenho essa expectativa. Mas, logo no início, eu não achava que ''Chão de Giz'' seria uma música de sucesso. E achava que ''Vila do Sossego'' seria.
Se você fosse fazer uma trilha sonora que resumisse musicalmente esses 60 anos de vida, quais músicas você escolheria?
Começaria por ''Disparada'', do Vandré. Meu autorretrato é uma música que o Mautner fez para mim e que deu título ao meu quinto disco, ''Orquídea Negra''. É como se ele me dissesse: ''Zé, você é a orquídea negra, que brotou da máquina selvagem, e o anjo do impossível plantou como nova paisagem''... Tem uma música minha, ''Beira-Mar'', que diz: ''E até que a morte eu sinta chegando, prossigo cantando.'' É o começo, o meio e o fim. Vou parafrasear Bob Dylan: ''Me sinto como se estivesse no meio do caminho. Vamos para os próximos 60 anos!''


