ZÉ DO CAIXÃO TROCA AS TREVAS PELA LUZ
Paulo San Martin
De Londrina
Especial para a Folha2
José Mojica Marins, criador de Zé do Caixão, o mais famoso personagem do cinema de terror brasileiro, está passando para um jovem sucessor o cetro de rei do mundo das trevas, que ele ostentou por mais de trinta anos. Mas iludem-se os que pensam que Mojica, aos 62 anos, e colhendo agora os louros do reconhecimento internacional por sua carreira de mais de quatro décadas de cinema, pensa em se aposentar. Um novo personagem, que ele imagina tão pavoroso e tão forte como o Zé do Caixão, já está sendo gestado por ele para encarar as transformações do Terceiro Milênio.
Mantido até agora em segredo, este personagem vai se chamar O Crente. Esta semana, em suas andanças por Londrina - onde veio dar palestra e exibir o filme À Meia-Noite Levarei Sua Alma a convite dos estudantes da Unopar - Mojica decidiu revelar, com exclusividade para a Folha, os principais traços de seu novo personagem.
Ao contrário de Zé do Caixão, O Crente não nasceu dos pesadelos de seu criador, mas do terror que Mojica diz ver estampado no cotidiano dos homens neste fim de século. Mojica conta que Zé do Caixão nunca se envolveu com questões religiosas. Mas este será o principal alvo dO Crente, garante. Para ele, os excessos da religião e a proliferação de seitas se transformaram no terror humano moderno. Com a entrada do ano 2000 este horror vai crescer, profetiza.
Assim como Zé do Caixão, O Crente também nascerá como personagem principal de um de seus filmes e a partir daí iniciará uma saga. O filme será rodado ano que vem e deverá ser lançado em 2001, conta.
A história dO Crente começa quando sua mulher morre por causa dos exageros da fé. Num quarto simples, de uma casa do subúrbio de São Paulo, a mulher agoniza e pede para que seu marido chame um pastor. Ele se recusa. Vê que ela está sangrando e insiste em chamar um médico. Mas ela briga. Não quer o médico, quer o pastor. Comovido e confuso com a presença da morte que já ronda sua casa, o homem atende aos apelos da mulher.
Minutos depois, o pastor chega com o seu séquito de fiéis e se põe a rezar obsessivamente ao redor da cama, enquanto a mulher se esvai em sangue. Durante toda a noite, o homem atormentado pede por um médico enquanto a reza prossegue. De manhã, a mulher está morta. Quando vê esta cena pavorosa o homem fica louco. A mulher ali, numa poça de sangue, enquanto o pastor continua rezando e rezando, empolga-se Mojica enquanto conta.
Depois de dias de tormento e loucura, o homem resolve se converter. Movido por estranhos desígnios, ele se transforma no fiel mais fervoroso da igreja do subúrbio. E assim começa a surgir O Crente. Em pouco tempo ele se transforma em pastor. Vira um ídolo e arrebanha multidões, revela.
O Crente é alimentado pela mesma contradição que transformou o personagem mais famoso de Mojica em um símbolo do terror mundial. Zé do Caixão é o homem que encarna todas as formas do mal, apenas para que Mojica possa revelar em seus filmes tudo o que considera maldade na espécie humana. O Crente também vai abusar da fé para mostrar os absurdos do excesso de fé.
Praticamente, O Crente vai ficar tão querido só porque levou Ciência onde todo mundo queria religião e fé. Ele não faz nada de mais. Leva medicina e psicologia onde os crentes só falam de curandeiros e exorcistas. Mas as pessoas são tão ignorantes que não percebem isso. Acham que ele é o maioral e que consegue estas coisas só porque é enviado de Deus. E ele vai enriquecendo, vai crescendo. E descarrega nos seus seguidores toda a revolta que sente por causa da morte da mulher que tanto amava, conta Mojica.
A imagem dO Crente está sendo cuidadosamente preparada por seu criador.
Assim como Zé do Caixão encarnou todos os arquétipos do terror universal, com sua capa de Conde Drácula, suas unhas de bruxa e cartola que esconde os chifres do demônio, O Crente vai incorporar as imagens dos propagadores da fé. Ele usa preto, como os padres e freiras. Um pouco de vermelho, que lembra os bispos. E terno escuro com camisa de colarinho e gravata, com a Bíblia debaixo do braço, como todos os pastores de todas estas igrejas que estão aparecendo por aí, antecipa.
Mojica quer aproveitar seu tardio reconhecimento internacional (leia texto nesta página) e sua enorme capacidade de marketing para transformar O Crente em outro símbolo da cultura nacional. O público dos meus filmes, meus gibis e meus livros sempre foi o povão. E o nosso sofrido povão brasileiro também é a maior vítima, praticamente, dos aproveitadores da fé. Por isso, podem esperar: O Crente vai causar muita polêmica e discussão, promete.O cineasta José Mojica Marins despede-se de Zé do Caixão e passa a encarnar O Crente, um tipo religioso que é seu novo personagem
Cesar AugustoJosé Mojica Marins prepara seu novo personagem: O Crente veste-se de preto como os padres e as freiras e, a exemplo dos pastores, vai levar uma Bíblia debaixo do braçoCesar AugustoZé do Caixão foi o representante máximo do cinema de terror tupiniquim, as unhas longas e a cartola que escondia os chifres compunham um arquétipo que ganhou fama internacionalO Crente é uma síntese dos propagadores da fé





