Marcelo AlmeidaZé Celso Martinez Corrêa na entrevista coletiva: estripulias embaixo das cadeirasTudo muito bem arrumadinho. Toalha esticada sobre a mesa sem uma ruga, cadeiras bem dispostas, jornalistas sentadinhos esperando, esperando e eis que de repente ele, sim ele, entra na sala de entrevistas com sua trupe. Deve ter achado aquilo tudo muito certinho e resolveu, à sua maneira, desfazer o clima sisudo instaurado no local. Armou seu circo. Posou para fotógrafos em vários cantos da sala, passou por debaixo de cadeiras, deitou-se sobre a mesa, cantou, saracoteou, enfim. Zé Celso estava em cena. Zé Celso Martinez Corrêa, para ser exato.
Depois de percorrer toda a sala, sempre com tiradas impagáveis, ele resolveu cantar para subir a entidade até então incorporada para que pudesse começar a falar sobre ‘‘Ela’’, espetáculo que será apresentado hoje e amanhã, no 7º Festival de Teatro de Curitiba. Foi duro, foi difícil começar o bate-papo. ‘‘Vamos fazer um clima gostoso, vamos fazer uma roda aqui nessa mesa branca. Isso, vamos fazer um ritual de mesa branca’’ - disse.
Enfim, Zé Celso mais uma vez recorreu à imagem que o folclorizou: a de um simpático maluco que, ao contrário de outros malucos deslumbrados, tem o que dizer. A mídia gosta dessa imagem. A mídia precisa dessa imagem de transgressor ora bendito, ora maldito. Imagens, imagens, imagens. Pois é justamente disso, imagens, que o espetáculo ‘‘Ela’’, de Jean Genet, trata. Espetáculo, por sinal dirigido por ele que também se veste de ator.
‘‘Ela’’, no caso, é Sua Santidade, o Papa. Não o Papa em si, mas a imagem que o Papa - tanto faz esse ou aquele - vende a todos os continentes em que há sempre um católico pronto a venerá-lo como o legítimo representante de Deus. ‘‘Eu me apaixonei por essa peça à primeira lida e achei fantástico porque Genet assim como entrou no quarto de madame, entrou nas prisões e em uma série de lugares onde habitualmente a dramaturgia não entra, resolveu entrar no Vaticano’’- afirma.
Há dois pólos no espetáculo. De um lado, ‘‘Ela’’, Sua Santidade. De outro, um fotógrafo pronto para captar a imagem Dela. Pois muito bem. O badalado fotógrafo, que havia anteriormente fotografado Hitler, aguarda ansiosamente a chegada de Sua Santidade juntamente com um mestre de cerimônias. De repente, um cardeal - fortíssimo candidato à sucessão papal - atravessa o caminho dessas duas criaturas. O fotógrafo o confunde, ajoelha-se, beija-lhe as mãos sem saber que na verdade o cardeal estava indo pescar.
Desfeito o mal-entendido, surge ‘‘Ela’’, Sua Santidade pronta para mandar sua imagem mundo afora. ‘‘Ela’’ exige do fotógrafo uma criação autêntica, livre das trucagens de representação que dela se apropriam. Está estabelecido o embate entre o caçador de imagem e a imagem, em carne e osso, moldada há anos e anos e anos e anos.
Diz Zé Celso: ‘‘O Genet penetrou dentro dessa figura que representa a imagem definitiva da comunicação do homem com Deus. Ele penetrou nessa imagem coagulada, nessa imagem do universo inteiro girando em torno de uma coroa, em torno de um ponto único. Genet viu que esse ponto único está oco e mostra isso numa sessão de fotografia’’.
Zé Celso e cia. chegaram a Curitiba com dois dias de antecedencia. O motivo é simples: iriam ensaiar com microfones já que a péssima acústica da Ópera de Arame já foi cantanda em verso e prosa. A preocupação do diretor e agora também ator é que as palavras do texto de Genet, traduzidas por ele e Catherine Hirsch, cheguem clara aos ouvidos do público curitibano.
Ah, o público curitibano. Exigente já não é mais um adjetivo, é uma obviedade. ‘‘O público daqui é difícil mas eu quero ver se a gente consegue ter talento para dar prazer a ele. Talvez seja uma imagem errada minha que eu quero quebrar’’- diz.
Aliás, a relação com Curitiba, segundo Zé Celso, é ‘‘engraçada’’. Esta foi a única cidade do Brasil em que o espetáculo ‘‘Galileu, Galilei’’ não teve boa repercussão, assim como ‘‘As Boas’’, encenada há seis anos, que teve sala lotada mas muita gente não aguentou ficar até o final. ‘‘Eu me lembro que em 68 o governador (na época Paulo Pimentel) bancou o ‘Rei da Vela’ contanto que a gente não se apresentasse aqui’’ - alfineta.
Polêmicas à parte, o fato é que ‘‘Ela’’ é um dos espetáculos mais festejados do FTC 98. E certamente vai arrastar uma multidão a Ópera de Arame para ver de perto as estripulias teatrais que esse papa do teatro brasileiro tem a dizer sobre a imagem de um certo Papa. Qual deles? Aí fica a critério de cada um...

‘‘Ela’’, de Jean Genet. Direção: Zé Celso Martinez Corrêa. Elenco: Marcelo Drummond, Fransergio Araújo, Vadim Nikitin, Wolneu Virgílio e Zé Celso Martinez Corrêa. Hoje (às 21h30) e amanhã (às 20 horas), no teatro Ópera de Arame. Ingressos: R$ 17,00.

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