Zé Carioca pé-vermelho
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sábado, 27 de setembro de 2014
Marcos Roman Reportagem Local 
Malandro, cheio de ginga e bom de lábia, Zé Carioca conquistou diversas gerações de fãs das mais diversas nacionalidades. Há mais de 70 anos o papagaio genuinamente brasileiro mostra ao mundo estereótipos tupiniquins que ganharam projeção internacional durante a Copa do Mundo 2014. O que pouca gente sabe é que muitos dos desenhos do personagem de histórias em quadrinhos criado por Walt Disney são produzidos em Londrina.
É de um apartamento com vista para a zona sul da cidade que Gustavo Machado montou seu estúdio particular, onde dá vida às histórias do Zé Carioca ambientadas no Rio de Janeiro. "É uma forma de matar a saudades da minha terra natal. Curiosamente, sou o segundo desenhista carioca a desenhar o Zé Carioca. Durante muitos anos essa função era executada apenas por um paulista e um gaúcho", afirma ele, que está radicado em Londrina desde 1993, quando se mudou para cá com sua segunda esposa, cuja família já morava aqui.
Criado no início da década de 40, o papagaio malandro começou a ser desenhado por Machado há 26 anos. "Em 1988 fui contratado pela Editora Abril e após realizar alguns testes fui convidado para desenhar o Zé Carioca. Na época nem acreditei pois desenhar os personagens do Walt Disney é o sonho de qualquer desenhista. É como uma espécie de selo de qualidade, pois são desenhos tridimensionais e muito bem acabados. Quem os desenha é capaz de desenhar qualquer coisa", salienta o artista, que já emprestou seus traços a outros personagens famosos do estúdio Disney como Tarzan, Corcunda de Notre Dame, Hércules e Mulan.
O desenhista explica que o processo de criação de uma história em quadrinho dos personagens da Disney é um trabalho em equipe que envolve diversos profissionais. "Primeiro eu recebo a história criada por um roteirista. O roteiro pode vir apenas escrito ou já com esboços de desenhos, que é para ter ideia da localização dos personagens. Em seguida eu crio um esboço dos desenhos a lápis ou nanquim e mando para aprovação do estúdio. Após aprovados, refaço os desenhos em tamanho ampliado que é para dar mais atenção a alguns detalhes. Na sequência entra o trabalho dos balonistas, que incluem os textos nos balões das conversas dos personagens. Depois vem o colorista, que vai dar cor aos desenhos e do arte-finalista, que será responsável pelo acabamento final de todo esse processo", detalha.
Nos mínimos detalhes
Machado revela que, em média, consegue produzir uma página de gibi por dia. "Esse tempo vai depender da quantidade de detalhes que os desenhos terão. Pouco antes da Copa do Mundo deste ano, por exemplo, produzimos uma história em que o Zé Carioca e sua turma estavam na arquibancada no Maracanã. No entanto, o estádio tinha acabado de ser reformado e eu tive que realizar muitas pesquisas para desenhá-lo com fidelidade. No gibi aparecem poltronas maiores para obesos que não existiam antes. São detalhes que às vezes até passam despercebidos pelos leitores, mas estão ali. Muitas pessoas acham que produzir um gibi é simples, mas até para desenhar uma câmera fotográfica que um personagem esteja segurando a gente tem que fazer pesquisa", enfatiza.
O cuidado maior, no entanto, está na hora de desenhar os personagens principais. "Temos que respeitar a proporção física de cada um deles. Embora as histórias sejam produzidas por vários desenhistas, os personagens não podem aparecer mais gordos ou mais longilíneos. Existe um padrão que tem que ser respeitado. Para garantir isso, recebemos do estúdio desenhos de cada um deles em pé e sentado, de frente e de costas, sorrindo e chorando e com várias outras expressões", salienta.
Apesar dos padrões já preestabelecidos, existe uma margem para que os desenhistas possam deixar a criatividade fluir. "Em uma das histórias do Zé Carioca eu tinha que desenhar um casal passeando pelas ruas do Rio de Janeiro. Fiz uma caricatura minha e da minha esposa transformada em periquita. Ficou muito engraçado e muita gente logo nos reconheceu. Já fiz o mesmo com muitos amigos e até com inimigos", relata o desenhista, aos risos.
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