''Zatoichi'' é a releitura que Takeshi Kitano fez de um personagem mítico da cultura pop do Japão e uma entidade clássica do cinema japonês de quimono-espada, gênero que teve mestres definitivos como Akira Kurosawa e Masaki Kobayashi. É a primeira incursão do ator-diretor de cinema e showman de televisão ao filme de época, ao drama histórico (''jidai geki''), e seu primeiro filme depois da estetizante, contemplativa experiência de ''Dolls''. ''Zatoichi'', drama? Nem tão drama, nem tão de época e nem tão histórico como parece à primeira vista. Esta ''fuga'', digamos, do rigor da homenagem que o cineasta reconhece e assume é que faz do filme um bom entretenimento, mas não cult instantâneo que os apressados italianos viram já nos créditos finais. É, sim, um agradável retorno ao tempo em que o cinema nipônico dos grandes estúdios (Toho, Shoshiku, Toei) era pródigo em épicos de samurais e abastecia com intensa regularidade não apenas o mercado interno, mas também os grandes e saudosos núcleos de imigrantes radicados no exterior no Brasil, capital e interior de São Paulo e interior do Paraná.
Através da ótica bizarra de Kitano, o samurai cego Zatoichi, vagabundo errante, jogador e massagista nas horas vagas, ganha vida novamente e promove um banho de sangue no Japão do século 19, empunhado sua arma contra a corrupção e a violência. Exímio no mortífero ziguezague da ''katana'', a legendária espada dos samurais, o estradeiro Zatoichi faz parada estratégica na vila dominada pelo clã de um malfeitor exemplar. Ali ele encontra duas irmãs, presumíveis gueishas, decididas a vingar a morte do resto da família.
''Zatoichi'', aliás o massagista Ichi (ou, mais corretamente, Zatô Ichi), andou pelas telas desde o início dos anos 1960 até durante boa parte dos 70, com um capítulo final em meados de 80. Foram mais de vinte episódios (ou as ''épocas'', como eram conhecidas as sequelas produzidas no Japão), interpretados do início ao fim pelo extraordinário ator Shintaro Katsu. Com fina ironia e apuradíssima sagacidade, ajudava os necessitados e os desesperados. A maioria daqueles filmes apresentava tramas intrincadas, que evitavam as armadilhas da serialização. A registrar que, durante a série , Zatoichi tinha um encontro com dois titãs do cinema oriental, o Yojimbo de Toshiro Mifune e o espadachim de um braço só, Wang Yu.
Com os cabelos oxigenados, o diretor Kitano e seu alter ego, o ator ''Beat'' Takeshi, se metem nas vestes de Zatoichi para recontar a saga. Do personagem original, Kitano só manteve as características exteriores: a cegueira, a itinerância de cidade em cidade, a massagem e a jogatina. E, claro, a espada letal escondida em sua bengala. Mas enquanto o antigo Zatoichi era humano, altruísta e emotivo, o atual é irônico, indiferente às pessoas ou ao ambiente ao redor. É apenas uma máquina de matar razão mais que suficiente par o diretor dedicar mais atenção aos inúmeros duelos. E depois de muito sangue ao borbotões (digitalizado, inclusive) e salpicado de humor negro com inúmeras referências ao western de Peckinpah e Sergio Leone , ''Zatoichi'' oferece um surpreendente epílogo sob a forma de musical, uma dança macabra que literalmente ressurge os mortos. A metabolizar oportunamente, numa revisão livre desta roda-viva que penaliza o crítico com um adstringente caleidoscópio de imagens e sons a uma velocidade vertiginosa.

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