Zaragoza faz crônica urbana
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de maio de 1999
Simone Mattos 
Literalmente, São Paulo está de cabeça para baixo no primeiro longa-metragem assinado pelo publicitário José Zaragoza, Até Que a Vida Nos Separe, em lançamento nacional na próxima sexta-feira e que será visto em pré-estréia hoje em São Paulo e amanhã no Rio. Mostrei o caos da cidade de uma ótica diferente, a partir da minha visão de artista plástico e gráfico, explica Zaragoza.
DivulgaçãoBetty Goffman e Murilo BenícioNuma das cenas do filme, ele inverteu a câmera e, num processo metafórico, mostrou a maior cidade do Brasil com o céu abaixo da terra. É uma cena deslumbrante, uma visão diferente e de beleza incrível, mas acima de tudo uma grande metáfora, garante.
Zaragoza nasceu em Barcelona, na Espanha, mas está no Brasil há 47 anos. Desde então, começou a trabalhar como publicitário. Realizou mais de 50 comerciais - muitos deles premiados no Brasil e no exterior - através da agência DPZ (para a formação da qual contribuiu com o Z).
Trabalhando sempre com curtíssimas-metragens publicitários, o catalão nunca deixou de acalentar, entretanto, a idéia de produzir um longa-metragem. Após a finalização de Até Que a Vida Nos Separe, Zaragoza já informa que ele foi apenas o primeiro de uma série. Segundo ele, o segundo filme já está em vias de ser filmado. Fui picado pelo vício do cinema e agora não pretendo mais parar.
DivulgaçãoMarco Ricca, Norton Nascimento, Betty Goffman e Julia LemmertzPara realizar o primeiro longa, entretanto, ele se uniu a uma equipe superqualificada. A obra, por exemplo, foi roteirizada por Leopoldo Serran, que já assinou películas como O Quatrilho, O Que é Isso, Companheiro? e Eu Te Amo.
Entrei neste filme como marinheiro de primeira viagem, confessa Zaragoza. Além de ambientar a história em São Paulo, que é a minha casa, cerquei-me de cuidados para não resvalar nos cacoetes da propaganda e orientei a minha equipe para chamar a minha atenção, caso alguma cena ficasse com cara de comercial, afirma ele.
Até Que a Vida Nos Separe teve um orçamento de R$ 4 milhões, captados através de empresas como a Volkswagen, Sadia, Kaiser e Petrobrás, com o apoio das leis de Audiovisual, Rouanet e Mendonça. O vice-presidente de Assuntos Corporativos da Volkswagen do Brasil, Miguel Jorge, afirma que a iniciativa de patrocinar o filme foi uma consequência do renascimento experimentado pelo cinema nacional. Excelentes produções conquistaram o público e a crítica, além da projeção internacional, comenta.
DivulgaçãoNorton Nascimento e Marco RiccaApós entrevistar cerca de 60 atores, Zaragoza optou por Bety Goffman, Julia Lemmertz, Alexandre Borges, Marco Ricca, Norton Nascimento e Murilo Benício para os papéis principais. O fato deles serem muito amigos na vida real ajudou na composição dos personagens, explica o cineasta. A Bety Goffman, por exemplo, é vizinha e ajuda a cuidar da filha da Julia Lemmertz, comenta.
Na tela, eles também são amigos inseparáveis. A idéia é mostrar que a amizade é uma das únicas recompensas para os que vivem numa cidade violenta e impessoal como São Paulo. Os personagens são jovens e bem-sucedidos, e estão sempre às voltas com seus pequenos dramas pessoais.
Com um tom bem-humorado, a história revela a personalidade de cada personagem. O pacato cotidiano do grupo é surpreendido por um crime misterioso, que acaba mudando sensivelmente suas vidas. Os sentimentos de solidão são amenizados pela fiel amizade entre o grupo e a angústia é amenizada por imprevisíveis encontros amorosos.
O elenco convive durante 1h47 do longa-metragem com uma cidade frenética. O cenário São Paulo obriga os protagonistas a atravessar temporais, entrar em congestionamentos, admirar a vista noturna da Avenida Paulista e entrar em parques e restaurantes da metrópole.
José Zaragoza fala de sua estréia no cinema: Tomei cuidado para não cair nos cacoetes da propagandaPara a realização de Até Que a Vida Nos Separe, a produção do filme estudou detalhadamente as mais de 100 sequências desenhadas plano a plano por Zaragoza, ao longo de seis meses. Este story board acabou se transformando numa exposição, prevista, por enquanto, apenas para acompanhar a exibição do filme em São Paulo. O longa-metragem estreará simultaneamente em sete cidades brasileiras, incluindo Curitiba.
Leia os principais trechos da entrevista que José Zaragoza concedeu à Folha2:
Como surgiu o roteiro de Até Que a Vida Nos Separe?
Eu jamais poderia fazer algo histórico, por exemplo, que falasse de personagens da história do Brasil. Por isso, escrevi uma história bem contemporânea, sobre São Paulo, cidade onde moro há mais de 40 anos. É um assunto que domino. O filme é uma espécie de crônica de comportamento, uma comédia dramática que fala sobre a amizade entre seis jovens de classe média que lutam para administrar as suas solidões.
Você não tem medo que o filme se torne muito regional?
Ele é regionalizado, sem dúvidas. Eu faço uma crônica e uma homenagem a São Paulo, mas acho que ele não deixará de ser nacional por isso, uma vez que em todo o mundo são feitos filmes que retratam uma determinada cidade, sem deixar de serem aceitos por todo o país.
Como foi que o publicitário se tornou cineasta?
Eu trabalhei com publicidade desde 1952, quando cheguei no Brasil, mas agora achei que era a hora de parar um pouco para ceder lugar aos profissionais da propaganda. Não queria mais essa história de dono de agência ficar fazendo comercial... Na verdade, eu sempre quis fazer um longa-metragem para o cinema, mas não tinha coragem.
É difícil fazer cinema no Brasil?
É difícil captar recursos para fazer um filme no Brasil. Fazer cinema é fácil, pois o brasileiro é uma das raças mais criativas do mundo. Temos profissionais fantásticos aqui, que adoram fazer o que fazem e que fazem muito bem. Foi a minha maravilhosa equipe técnica que me ensinou a fazer cinema e a perder o medo do cinema. Eu disse a eles que teriam que ter paciência comigo, já que eu era marinheiro de primeira viagem. Até Que a Vida Nos Separe foi um ótimo treino para que eu aprendesse a fazer um longa.
E qual será o próximo filme de Zaragoza?
Será uma espécie de história de Davi e Golias, chamada A Pedrada. Enquanto no Até Que a Vida nos Separe eu falei de forma cômica sobre a classe média, neste eu abordarei em tom dramático a classe alta. Será um thriller, um drama pesado em que abordarei a seguinte trilogia: o dinheiro de São Paulo, a beleza do Rio de Janeiro e o poder de Brasília.
Já tem data prevista para o lançamento do novo filme?
Ele será filmado no segundo semestre deste ano, mas ainda não sei quando estará pronto. No elenco, já estão confirmados os nomes de Raul Cortez, Malu Mader, Selton Mello, Murilo Benício e Carolina Ferraz, entre outros.
FICHA TÉCNICA
Até Que a Vida Nos Separe (São Paulo, 1999, 110 minutos)
Direção: José Zaragoza
Argumento: José Zaragoza
Roteiro: Leopoldo Serran
Produtor: Ângelo Gastal
Diretor de Produção: Marçal de Souza
Direção de Fotografia: Rodolfo Sanches
Direção de Arte/Cenografia: Marcos Weinstock
Figurinos: Joca Benavent Monfort
Direção Musical: Frederic Fermus
Técnico de Som: Romeu Quinto
Elenco Principal
Lulu: Bety Goffman
Maria: Julia Lemmertz
João: Alexandre Borges
Paulo: Marco Ricca
Pedro: Norton Nascimento
Tonio: Murilo Benício


