Yukio Mishima e a terceirização da vida
“Vida à Venda”, best-seller do escritor japonês, apresenta a história ficcional de um sujeito que entrega sua existência a outras pessoas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021
“Vida à Venda”, best-seller do escritor japonês, apresenta a história ficcional de um sujeito que entrega sua existência a outras pessoas
Marcos Losnak 
“Nada em sua mente estava definido. Fato é que, ao ver as letras do jornal se transformarem em baratas, sentira que não adiantava mais viver. Tanto bastou para que a ideia de ‘morrer’ a amoldasse à sua cabeça, assim como um gorro branco de neve na caixa vermelha do correio em dias de inverno.”
É desta forma que o escritor japonês Yukio Mishima (1925 – 1970) descreve a sensação do personagem Hanio diante de uma súbita vontade de morrer sem motivo: “Se insistissem em um motivo, não lhe restaria senão dizer que, precisamente, a ausência de motivo fora o motivo.”
Hanio é o personagem principal de “Vida à Venda”, ficção de Mishima publicada originalmente como folhetim na edição japonesa da revista “Playboy” entre maio e outubro de 1968. Publicada em formato de livro somente em 2015, se tornou best-seller no Japão ganhando uma adaptação para minissérie em 2018. O romance acaba de receber sua edição brasileira pelas mãos da editora Estação Liberdade.
Em “Vida à Venda”, Hanio é um jovem que decide morrer de uma maneira diferenciada. Em vez de colocar fim na própria vida através do suicídio, revolve colocar sua vida nas mãos de terceiros. Para isso coloca um anúncio no jornal com as seguintes palavras: “Vendo minha vida. Use-a como quiser. Homem de 27 anos. Garanto sigilo. Tranquilidade absoluta.”
E assim clientes do submundo da sociedade japonesa aparem e oferecem à Hanio propostas em que ele pode perder a vida. E através das situações mais absurdas, de risco e perigo, ele inexplicavelmente sempre acaba saindo vivo. A morte abocanha a vida de terceiros, nunca sua própria vida. Esta é a grande ironia do romance de Yukio Mishima. O desejo de morrer retira o peso sobre a vida e, justamente por isso, a morte não se manifesta.
A editora Estação Liberdade deve lançar outros seis livros de Mishima, com traduções diretamente da língua japonesa, ao longo de 2021. Em março chega às livrarias o romance “O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar”. Na sequência serão lançados os quatro volumes da tetralogia “Mar da Felicidade”, considerada a obra-prima do escritor.
A editora também deve lançar, ainda sem data definida, o ensaio autobiográfico “Sol e Aço”, última obra escrita por Mishima que ficou conhecida no Brasil pela tradução realizada pelo poeta Paulo Leminski na década de 1980. Considerado uma teorização de seu próprio suicídio, o ensaio expõe a tese da unificação entre corpo e espírito como obra de arte.

Em 1970, comandando o grupo paramilitar Sociedade do Escudo, Mishima invadiu a sede do exército de Tóquio exigindo o retorno do poder imperial. Diante do fracasso do movimento, considerado uma piada, cometeu harakiri (seppuku) ao lado de outros militares. Este suicídio ritual da classe dos samurais teria sido o ápice de sua tentativa em fazer do corpo, da história e da vida, uma obra de arte.
Yukio Mishima esteve no Brasil entre janeiro e fevereiro de 1952. Viajou pelo interior e São Paulo e Mato Grosso se encantando com a fauna e flora. Mas foi a estadia no Rio de Janeiro, durante o carnaval, que teria marcado sua literatura. Alguns pesquisadores indicam que, vivendo o carnaval carioca, o escritor teria abraçado pela primeira vez sua homossexualidade máscula.
Nascido numa família de samurais, Kimitake Hiraoka formou-se em direito e adotou o pseudônimo de Yukio Mishima quando publicou seu primeiro romance, “Confissões de uma Máscara”, em 1948. Escreveu peças de teatro, atuou como ator de cinema, se aprofundou nas artes marciais e outras artes. Foi indicado três vezes ao prêmio Nobel de Literatura, mas nunca ganhou.
No final de “Vida à Venda”, o protagonista, após viver as mais variadas situações de morte sem deixar a vida, chega à conclusão de que talvez tenha se cansado de morrer: “Por que as pessoas prezam tanto a vida? Como entender esse apego em pessoas que nem ao menos enfrentavam risco de morte? Só pessoas como ele podiam se mostrar tão afeiçoadas à vida.”

Serviço:
“Vida à Venda”
Autor – Yukio Mishima
Editora – Estação Liberdade
Tradução – Shintaro Hayashi
Páginas – 256
Quanto – R$ 53


