Yoshi Oida lança autobiografia em São Paulo
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terça-feira, 15 de junho de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 16 (AE) - O livro de cabeceira de qualquer aspirante a ator deveria ser a autobiografia de um grande intérprete japonês, Yoshi Oida, "Um Ator Errante", que ele lança amanhã (17), às 19 horas, no Sesc Pompéia, em São Paulo, seguindo-se uma conferência, às 20h30, em que fala de sua experiência com grandes diretores (Peter Brook, Peter Greenaway) e responde a perguntas do público. Oida, que visita o Brasil pela primeira vez, faz três sessões de sua performance "Interrogações", sexta-feira, sábado e domingo, no mesmo local
e comanda oficinas com atores, a partir de segunda-feira, também no Sesc Pompéia.
Convidado pelo Sesc e pela Cooperativa Paulista de Teatro, Yoshi Oida é mais conhecido aqui por sua performance no filme de Greenaway, "O Livro de Cabeceira" (The Pillow Book), em que interpreta um editor homossexual seduzido por Ewan McGregor, o ator de "Star Wars". No entanto, foi na companhia teatral de Peter Brook que realizou seus trabalhos mais importantes (A Tempestade, Mahabharata) e é por eles que gostaria de ser lembrado. O trabalho com Greenaway foi apenas "profissional", segundo Oida.
"Ele simplesmente perguntou se eu teria algum problema em atuar sem roupa e com outro homem na cama", conta, rindo. "Disse que não e começamos a filmar". O filme, segundo Oida, não foi muito bem no Japão, onde a censura ainda proíbe a exibição de pêlos pubianos. De qualquer modo, ele considera o resultado da obra menos interessante do que a discussão conceitual proposta por Greenaway, ou seja, a perda gradativa do poder transformador da palavra, traduzida em imagens nas culturas arcaicas.
Essa experiência com Greenaway não foi suficientemente traumática para encerrar sua carreira no cinema. "Depois de fazer um devasso, virei um padre católico de 65 anos no filme do português João Grilo, "O Olho da ásia", conta. Oida, mais uma vez, deverá ser um homem religioso no novo projeto teatral de Peter Brook, em que vai interpretar um mestre sufi, morto pelo colonialismo francês durante a 2.ª Guerra. Oida, que relata em seu livro autobiográfico experiências em mosteiros budistas, rejeita cultos e seitas religiosas. Acha que são pedras no caminho da iluminação. "Como ator, tenho de conhecer todas essas seitas, mas o dogma impede a circulação de energia pura em seu corpo e, portanto, não posso aceitá-lo", justifica.
Nascido em Kansai, na região de Osaka, Oida foi criado dentro da tradição e se tornou amigo de Mishima, o escritor japonês que cometeu suicídio em nome dela. Ele o dirigiu numa montagem de "Salomé", de Oscar Wilde, em que o ator representava um jovem soldado sírio apaixonado pela personagem bíblica. Salomé o rejeita e ele se mata com um punhal, como faria Mishima anos mais tarde. "Na cena do suicídio, ele gritava mais sangue, mais sangue e eu não podia imaginar que se tratava de uma antevisão da própria morte de Mishima", conta.
Apesar disso, Oida não faz uma análise apaixonada dos motivos que levaram Mishima a morrer em nome das tradições japonesas e contra a contaminação cultural de seu país. O ator lembra que o suicídio, no Japão, é visto de forma diferente. "O corpo, para Mishima, era só um invólucro, uma roupa", explica. "Carregar um corpo e ser livre é um desafio, quase um paradoxo, porque nosso destino é a metafísica", defende.
Isso explica sua predileção pelos textos de Beckett, que considera o grande autor do século 20. Ele viu "Esperando Godot" há mais de meio século e diz que a forte impressão que a peça lhe causou ainda não encontrou correspondência no teatro contemporâneo. Para ele, a questão fundamental da peça, como viver num mundo absurdo, continua martelando em sua cabeça, exigindo dele a busca de uma resposta no palco, longe da ilusão de segurança. Foi por isso que abandonou o Japão, "fugindo de uma sociedade opressora" há mais de 30 anos, para entrar numa companhia (a de Peter Brook) formada por atores de várias partes do globo.
"Ao contrário de outros diretores, que usam o texto como pretexto para autopromoção, Brook faz teatro para entender o problema existencial", diz. "Ele não me aprisionou em seu background cultural, preferindo mostrar o caminho para a libertação ao pedir que renegasse todas as técnicas de interpretação que eu dominava", conta Oida. Hoje, ele se considera um cidadão do mundo. Nem pensa mais em morrer no Japão
como escreveu na autobiografia lançada amanhã e publicada em Londres pela primeira vez há sete anos. "Hoje, posso morrer em qualquer lugar, porque meu país é o mundo", diz, antes de agitar as pernas curtas e fazer sinal para um táxi.


