Yoko Ono vai mostrar sua arte no Brasil
Ela participa de uma coletiva de artes plásticas
que abre dia 15 na Faap, em São Paulo
Jotabê Medeiros
Depois de Maria Kodama, outra viúva famosa vai fazer barulho no Brasil em setembro. Trata-se de Yoko Ono, a eterna parceira de John Lennon. Ela participa da coletiva Além do Arco-Íris, a partir do dia 15, no Salão Cultural da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). A mostra fica no local até 4 de outubro.
Convidada pelo amigo e um dos curadores da mostra, o norueguês Per Hovdenakk, a artista ainda não confirmou publicamente sua vinda para a exposição, que é tida como certa. Segundo os organizadores, ela só deve confirmar na véspera porque não quer badalação. Sua vinda envolveria um aparato de segurança digno de Michael Jackson.
Yoko estará bem acompanhada na coletiva - com ela, estarão Jac Leirner, Alexandre da Cunha, Antonio Malta, Solange Pessoa, Mauro Restife, Lúcia Mindlin, Marepe, Efraim Almeida, Erika Verzuti, Marcelo Cipis, Martha Lacerda, Tonico Lemos e Sabine Kaepler. A viúva de Lennon, eterno vodu para os fãs dos Beatles, vai mostrar uma instalação inédita na exposição, elaborada especialmente para o Brasil: Add Color Painting.
A obra faz parte de uma série que Yoko desenvolve desde 1968. O trabalho, que será totalmente montado aqui, consiste na pintura gradativa de um escritório cinza pelo espectador. Montada por uma cooperativa de artistas paulistanos, a coletiva não tem ligação temática e envolve diversas linguagens: pintura, escultura, fotografia, instalação.
Buenos Aires também inaugura no dia 15 de outubro outra mostra da artista plástica japonesa, com duas obras. Em Buenos Aires, Yoko já confirmou sua presença. En Trance é uma compilação de cinco instalações. O nome brinca com signos, Entrance (entrada), ou Em Transe, assim como Ex It, que joga com a divisão da palavra e seus significados (o It, como pronome indefinido, e Exit, saída). O It é usado por Yoko para fazer pensar naquele que deixou de ser, de ter nome, de se poder nominar, segundo ela explica.
Yoko Ono conheceu John Lennon em novembro de 1966, quando os Beatles trabalhavam na obra-prima Sergeant Peppers, que seria lançado em julho de 1967. Ela tinha 33 anos e John tinha 26. Segundo ela contou recentemente, era uma feminista radical naquela época e achava que todos os homens eram hipócritas, mas foi tocada pela inteligência e pelo talento de Lennon.
Mas Yoko sempre caminhou na contramão da proposta pop dos Beatles, o que conspirou para torná-la a mais odiada personagem da beatlemania. Lennon teria sido corrompido por ela, o que é uma tremenda besteira. Juntos, eles compuseram até um dos hinos hippies, Give Peace a Chance.
A performer japonesa de 65 anos foi uma das mais famosas integrantes do grupo de arte de vanguarda Fluxus, no começo dos anos 60. Seus poemas verbais, filmes e atuações de palco anteciparam procedimentos do minimalismo e da arte da performance, além de espalhar influência pelo novo cinema americano e pela música new wave.
John Cage foi do Fluxus. O historiador e artista Ken Friedman chamou a obra de Yoko de vaudeville zen e o lituano George Maciunas, o cérebro do Fluxus, disse que ela fazia um tipo de teatro neo-Haiku.
Segundo assinalou o crítico Peter Frank, o movimento Fluxus surgiu em Nova York por volta de 1960 e depois rumou para a Europa, estabelecendo-se ainda no Japão. Envolvia uma tese de mínima gestualidade e partia de premissas dadaístas, da Bauhaus e do zen.
Os críticos assinalam influências do grupo Fluxus nos últimos 38 anos da arte ocidental. Seus artistas compreendiam que todas os meios e todas as disciplinas artísticas poderiam ser usadas num jogo de combinação e fusão. O minimalismo e idéias científicas, filosóficas e sociológicas juntavam-se em comentários estéticos.
O trabalho de Yoko Ono tem esse caráter conceitual. Em 1961, ela montou Painting to Hammer a Nail In, no qual pedia dinheiro para o espectador que quisesse colocar um prego na sua obra e intervir na ordem. Entre seus filmes de destaque está Bottoms , que mostra 365 nádegas em desfile. Outros filmes de sua autoria: Erection, Rape e Imagine.
Recentemente, Yoko - mãe de um filho de Lennon, o cantor Sean - revelou que deve lançar em um futuro próximo um disco de canções perdidas de John Lennon. As chamadas The Lost Lennon Tapes são fitas gravadas durante o programa Westwood One que poderão ser reunidas num CD com outras coisas que o cantor deixou.
Ela também declarou-se favorável à realização de um filme contando sua história com o cantor, uma saga realmente agitada. Uma biografia filmada do casal é visto com reservas pelos fãs mais exaltados, que acham que a Mulher Dragão vai usar o filme para acertar as contas com os detratores, que são muitos. Mas o fato é que, durante todos esses anos, Yoko teve pouca chance de defesa contra os que crêem que foi ela a causa do fim dos Beatles. Enquanto isso, ela tocou a vida, de forma muito particular. É muito conhecido o trabalho da artista em prol de causas ecológicas ou humanitárias atualmente, ela luta contra a intervenção chinesa no Tibete, participando de shows e palestras.





