'Yo soy él Lobón'
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de maio de 2009
Rafael Urban<br> Equipe Urban 
Fotos: Arquivo Folha
Lobão não esconde a chateação de ser tratado como um roqueiro falastrão: 'O que estou falando há mais de trinta anos ninguém fala'
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''Ainda não ingressei na grande cultura brasileira'', sentencia Lobão, aos 51 anos. A vantagem de não ser levado a sério, explica o músico, é a de ser jovem por mais tempo. Se o chamam de moleque, diz que é garoto. Em entrevista à FOLHA durante o I Congresso de Jornalismo Cultural, em São Paulo, na semana passada, Lobão não escondeu a chateação. Mesmo com um Grammy Latino no currículo, de melhor álbum de rock brasileiro por seu Acústico MTV (2007), continuam o tratando como um roqueiro falastrão e marqueteiro, o que ele desconfia mesmo ser, mas aponta que esse não é o xis da questão. ''O que estou falando há mais de trinta anos ninguém fala''.
Ele entende que o seu disco da MTV reformulou um sistema de trabalhos ruins feitos pelo selo como caça-níqueis e que vinha sendo a pauta dos acústicos. Questionado sobre a sua participação na televisão, conta que toma muito pouco de seu tempo, que faz programas de qualidade e que a sua presença foi um ponto de partida para a reformulação na grade do canal. ''Veja que a Daniela Cicarelli não está mais lá'', exemplifica. Entende que todos os seus trabalhos anteriores a 1995 são muito ruins, ainda que Cena de Cinema (1982) tenha sido fundamental para que ele não fosse eternamente o ''baterista da Blitz''. Sobre a sua geração, sentencia: está toda morta, sendo ele o único que se reinventou.
Lobão crítica o mito, e diz ter ficado irritado com a fanfarronice da imprensa em relação ao aniversário da Bossa Nova. Mais uma vez, diz que Chico Buarque, Gilberto Gil e Elis Regina não têm importância. ''Falo isso sabendo que falar mal do Chico é suicídio no Brasil.'' E, dez anos depois do lançamento do disco ''A vida é Doce'', 97 mil discos vendidos nas bancas segundo suas contas, aponta este como o primeiro disco numerado da história da música mundial. Foi também o momento de ruptura com as gravadoras. Lobão insiste, não tem nada contra elas, tampouco contra o capitalismo. E, recentemente, por sinal, assinou com a Sony. Trata-se, ele diz, de uma questão de direitos: sem numeração, os artistas são passados para trás. Por fim, lembra que a internet é importante, mas não é a solução para tudo.
Durante o debate do congresso, você mencionou que se viu ridículo ao se assistir na TV Cultura tocando tamborim
Foi um período em que estava numas de ''tenho que ser brasileiro'' e aí me flagrei sendo o mais distante de mim possível, porque eu não vivi aquilo. E comecei a entrar em conflito: a intelectualidade brasileira me cobra de ser colonizado por tocar guitarra? Acho que todo mundo sofre disso, mas ninguém fala: ser roqueiro é ser artista de segunda no Brasil. Na época eu pensei, ah é? Já que eu tinha um background muito grande de música clássica, toco vários instrumentos, não me foi difícil fazer um disco cabeça. E dentro desse disco tem®MDBO¯ ®MDNM¯até algumas coisas boas, mas ele é ingênuo na medida que eu estava sofrendo essa crise de ''olha como eu sou importante, como sou inteligente, como eu sei mil harmonias, como eu sei o samba...''.
Você está falando de qual disco?
''Nostalgia da Modernidade'' (1995). Ele tem até determinada qualidade, mas é bobo. As pessoas tem de entender que vou ser autocrítico para mim, não vou ser crítico em relação aos outros. Acho que comecei a fazer disco bom a partir de 1995 e só fiz dois ou três discos bons. O resto são uma porcaria.
E você considera isso numa boa?
Mas eu tenho certeza disso. Eu acho que o ''Cena de Cinema'' (1982) é um puta disco. O ''Noite'' (1998) é um disco de música eletrônica que é o primeiro em que sou autoral mesmo, em que me torno um compositor de verdade. Em ''A vida é Doce'' (1999) eu me torno um compositor definitivo.
Para um artista do mainstream, você conseguiu um feito inédito distribuindo seu trabalho em bancas de jornal...
Eu acho que me reinventei. Da minha geração ou morreram ou morreram. Desde o ''Noite'', eu mudei completamente. Comecei a tocar todos os instrumentos, assumi a direção musical e a produção do meu trabalho. Eu virei aquele artista ali, de certo modo tardio. Daí tem o ''A vida é Doce'', o Canções (Canções Dentro da Noite Escura, de 2005), que acho que é meu melhor disco, e tem o ao vivo (Lobão 2001 - uma Odisseia no Universo Paralelo, de 2001), que considero um puta disco e o melhor ao vivo gravado no País.


