Yamandu Costa e Dominguinhos: o que esperar de uma combinação aparentemente tão inusitada? A resposta, como se pode conferir no DVD Yamandu+Dominguinhos, é uma só: música da melhor qualidade. O disco, lançado pela Biscoito Fino e gravado pela TV Cultura, limita-se a registrar o show realizado no Auditório Ibirapuera, em São Paulo - show que, por sua vez, é a ampliação do repertório do álbum de mesmo nome, lançado em 2007.
Como um é gaúcho de Passo Fundo e o outro, pernambucano de Garanhuns, as comparações são inevitáveis. Mas aos poucos se descobre que a distância é apenas geográfica. A relação entre esses dois grandes instrumentistas deu tão certo que resultou inclusive na música ''Bonitinho'', composta em parceria - Yamandu lançou um tema, Dominguinhos completou e pronto.
No disco estão presentes o sertão de Asa Branca, o Rio Grande de Prenda Minha mas também a brasilidade do choro e outros ritmos, em um disco que apresenta as semelhanças e valoriza as diferenças musicais. Nas 22 faixas, cada um incluiu apenas uma composição própria: Te cuida, rapaz! (Dominguinhos e Anastácia) e Bagualito (Yamandu Costa).
Mais que dialogar, o acordeon e o violão complementam-se, e o resultado é primoroso, como se pode notar em faixas como Odeon (Ernesto Nazareth e Vinicius de Moraes), João e Maria (Sivuca e Chico Buarque), Estrada do Sol (Tom Jobim e Dolores Duran), Doce de Coco (Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho) e Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu), que encerra o show.
Dominguinhos canta em ''Tesouro e Meio'' (Luiz Gonzaga), e Yamandu também se arrisca a soltar a voz em ''Negrinho do Pastoreio'' (Barbosa Lessa). E já é suficiente: o resto eles entoam, interpretam, expressam - e encantam.
Nem parece, mas a parceria é recente. Antes desse encontro, sugerido pelo próprio Yamandu, os músicos só haviam tocado juntos uma única vez, em uma apresentação no Rio Grande do Sul, em 1995. No DVD, Yamandu revela que aprendeu do acordeonista uma grande lição durante a execução de ''Mercedita''. Escolhido como o primeiro instrumentista a improvisar, o violonista logo fez jus à sua fama de promissor (na época ele tinha só quinze anos) dedilhando uma infinidade de notas. ''Eu entrei com uma sede, milhares de notas, para tentar impressioná-lo'', admite. Por sua vez, Dominguinhos teria tocado apenas quatro notas, segundo relata Yamandu, que reconhece: ''Naquele momento eu entendi o que era colocar o coração na música. E agradeço pela aula, porque a partir daquele momento eu mudei completamente''.
De fato, longe de tentar impressionar, Yamandu se apresenta como um amigo que contempla e acompanha. O respeito e a admiração, aliás, são mútuos e evidentes. Junte-se a isso o virtuosismo no violão de sete cordas e no acordeon de 120 baixos, devidamente explicitado nos vários closes no vídeo, e temos uma bela aula sobre como se coloca o coração na música.

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