Assim como as linhas das mãos são únicas e consistem em nossos sulcos naturais, encravados na própria pele, a xilogravura nos remete para uma sensibilidade bastante natural e original. Técnica artística ainda um pouco desprezada pelo meio artístico pelo seu poder característico de reprodução - já que a matriz pode gerar infinitos exemplares -, engana-se quem a considere uma arte menor ou fácil de fazer.
Designada pela artista plástica Dolores Branco como a ''arte da paciência'', a gravura entalhada na madeira exige do artista muita perseverança e dedicação para atingir a excelência do trabalho de entalhe, normalmente em lâminas de MDF (um tipo de madeira compensada).
Em Londrina, desde o ano passado dezenas de crianças estão sendo apresentadas a esse mundo lúdico da xilogravura, que amplia a capacidade de observação, o pensamento cognitivo e desenvolve a sensibilidade artística.
Realizada nos arcos do Museu de Arte de Londrina, a oficina gratuita acontece todo sábado de manhã e ainda há vagas. O curso também é oferecido gratuitamente para adultos e é uma boa chance para os professores se aprofundarem nessa técnica, que pode se tornar uma atividade prazerosa na sala de aula. A atividade é mantida pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
Alguns dos trabalhos realizados pelas crianças em 2006 podem ser conferidos na exposição itinerante que começou no dia 28 de maio na Sala José Antônio Teodoro, na Secretaria de Cultura. Desde o dia 5 de junho a mostra está no Espaço Cultural Mister Cuca, onde fica até o dia 15 de julho.
Em seguida, de 17 a 28 de julho, poderá ser conferida no Espaço Cultural da Biblioteca Pública Municipal. Depois dessa data a itinerância deve seguir para algumas cidades da região, como Cambé e Maringá.
Com muita criatividade e motivos variados, os pequenos aprendizes conseguiram realizar uma bela demonstração do seu poder artístico. Os detalhes de cada trabalho e os avanços perceptivos que cada um atinge podem ser conferidos. Desde o detalhe dos pés de coqueiro que são irregulares e tombados - trabalho resultante da observação da planta a partir de uma janela do museu até o semblante maroto e malandro de algumas figuras representadas que lembram o universo do hip hop. Um novo jeito de observar o mundo e representá-lo.
O trabalho também abarca um sentido social ao democratizar o acesso à arte. A maioria dos alunos é do Conjunto Novo Amparo (Região Leste) e a oportunidade de participar da oficina foi uma forma deles se sentirem integrados à sociedade, já que o bairro ainda é estigmatizado pela vulnerabilidade social.
Segundo a coordenadora da Associação Mãos Estendidas, do Novo Amparo, Marta Matsubara, esse tipo de inclusão é fundamental para a criação de referências positivas. ''Muitos deles nunca tinham saído do bairro, não conheciam a cidade como um todo. Não tinham idéia de como era um museu, um shopping, por exemplo'', comentou Marta.
A associação fornece passe de ônibus e lanche para as crianças poderem participar da oficina. Em atividade desde 2003, a entidade também oferece às crianças aulas de informática, inglês, atividades lúdicas de português e matemática, expressão artística, além de atendimento médico e passeios pela cidade.
''É interessante destacar que quando começaram a oficina as crianças demonstravam muita defasagem psicomotora, perceptível na dificuldade em utilizar as ferramentas na hora de entalhar. Com o tempo isso foi superado e o curso também melhorou a auto-estima e diminuiu a ansiedade deles'', ressaltou Marta.
Bastante orgulhosa dos trabalhos realizados pelos seus ''pupilos'', a artista plástica Dolores Branco comentou que a atividade com a xilogravura também proporcionou o questionamento sobre o preconceito e os pré-conceitos do que seja belo, feio, novo, diferente. ''A gravura avança sobre a idéia de reprodução, cópia de desenhos considerados 'perfeitos', normalmente tão utilizados com crianças. Aqui eles têm a liberdade da criação e são estimulados a observarem, a treinar o olhar'', afirmou.
No curso, as crianças recebem noções de proporção e cores quentes e frias, mas o que vale é a criatividade espontânea que demonstram. ''O que é bonito é a espontaneidade do desenho sem patrulhas.''
Um dos 13 alunos que tem trabalhos expostos na mostra itinerante é Rodrigo Souza Salles, 13 anos. Para ele, o aspecto mais difícil da técnica da xilogravura foi a utilização das ferramentas. ''Quase cortei as pontas dos dedos. Criar o desenho é fácil. O difícil é entalhá-lo na madeira'', disse o pequeno artista que gosta de criar paisagens da natureza.
Rafaela da Silva Raimundo, 12, também estava orgulhosa do seu trabalho. ''Achei a experiência muito boa, apesar das dificuldades de usar a goiva. Vendo as minhas gravuras aqui dá para me sentir um pouco artista'', contou a aluna, que se dedicou a elaborar gravuras de coração e animais.
A zeladora Cleusa Modesto da Silva, mãe do artista mirim Luiz Felipe Gonçalo da Silva, 11, também elogiou a iniciativa do projeto. ''Sempre dei apoio para que o meu filho frequentasse o curso. Ele gostou muito e sempre elogiava a maneira como a Dolores ensinava'', disse.
Mais informações sobre o curso no Museu de Arte de Londrina pelo telefone (43) 3337-6238.

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