Xenofobia nacional em debate
Grupo Carmin aborda preconceito contra os nordestinos em espetáculo em cartaz no Filo premiado nacionalmente
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de agosto de 2019
Grupo Carmin aborda preconceito contra os nordestinos em espetáculo em cartaz no Filo premiado nacionalmente
Marcos Roman - Grupo Folha 
A xenofobia sofrida pela população nordestina desde a época do Brasil Colônia e que ganhou proporções gigantescas, desde que viralizou pelas redes sociais em ataques cada vez mais constantes e agressivos, tem destaque na programação do Filo 50+1. O assunto é o tema central do espetáculo “A Invenção do Nordeste”, que o Grupo Carmin leva ao palco do Teatro Ouro Verde nesta terça (20) e quarta-feira (21), às 21h30. Sucesso de público e crítica, a montagem da trupe potiguar conquistou o Prêmio Shell 2018 na categoria Dramaturgia na 31ª edição e levou o troféu de melhor espetáculo do Cesgranrio de Teatro.
A montagem é fruto de dois anos de uma pesquisa motivada pelas primeiras manifestações xenofóbicas nas polarizadas eleições presidenciais brasileiras de 2014. “Começamos a nos perguntar os motivos pelos quais o Nordeste sempre é associado à miséria, à fome, à seca e por que os nordestinos são vistos como cabeças-chatas, burros e preguiçosos”, conta a atriz e diretora Quitéria Kelly.
Ela conta que as indagações levaram o grupo a fazer um mergulho na tese de doutorado do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr, cuja pesquisa foi publicada no livro “A Invenção do Nordeste e outras Artes”. “Descobrimos que esse preconceito contra os nordestinos é histórico e foi fortalecido por diversos fatores. Tudo começou com os antigos coronéis que dominavam a região e com medo de perder o poder político e econômico sobre os trabalhadores locais se mostraram contrários à chegada as máquinas vindas do sudeste às suas fazendas. O argumento usado por eles era de que os nativos não saberiam lidar com as novas tecnologias por serem burros e preguiçosos. Esse tipo de preconceito foi se perpetuando com o passar do tempo”, afirma Quitéria.
Segundo ela, a estereotipação dos nordestinos também foi promovida pela literatura. “O mito de que todo o povo do nordeste é cabeça-chata, por exemplo, surgiu com relato que Euclides da Cunha fez no livro “Os Sertões” sobre os moradores que encontrou no interior da Bahia. Mas isso não corresponde à verdade, pois além dos índios e africanos, o Nordeste também foi colonizado por portugueses e holandeses. Não é possível fazer essa geografia do corpo, pois há muita gente loira, alta e de olhos-verdes na região”, argumenta.
Outros pontos negativos associados à região nordeste também foram pesquisados pela trupe. “Embora o Nordeste seja visto sempre como símbolo da fome e parte da população nordestina seja acusada de sobreviver da renda do Bolsa Família, a maior concentração de benefícios concedidos pelo programa federal é registrada em São Paulo. Os homens nordestinos se tornaram sinônimo de machismo, porém o maior número de casos de violência contra a mulher no país acontecem no Rio de Janeiro e São Paulo”, relata Quitéria.
Com esses e outros dados em mãos, os atores do Grupo Carmin optaram por abordar o assunto de forma cômica. “Se a gente fosse apresentar tudo o que que levantamos de forma didática o espetáculo ficaria muito chato. Resolvemos então falar do assunto como se fosse uma divertida conversa informal em um bar”, diz a diretora.
Na trama levada para o palco, um diretor de cinema seleciona o ator de um filme cujo protagonista é nordestino. A escolha entre dois atores finalistas coloca em movimento reflexões em torno de um estigma: os estereótipos não conseguem abarcar a diversidade e complexidade do que é ser nordestino em meio a referências tão múltiplas quanto díspares – de Glauber Rocha e Euclides da Cunha, de Luiz Gonzaga a Ariano Suassuna. A montagem se vale de recursos como filmes e documentos, maquetes e miniaturas, em diferentes registros de atuação — tragédia, comédia, teatro épico, pós-dramático, dança.

Quitéria enfatiza que o preconceito abordado na montagem já foi sentido inúmeras vezes pelos integrantes da companhia que surgiu no Rio Grande do Norte, em 2007. “Cansamos de ouvir comentários do tipo: 'os espetáculos de vocês são tão bons que nem parecem que ser nordestinos.' Os atores nordestinos sempre encontraram resistência dos diretores na hora de escolher alguém para interpretar personagens que vivem no Sudeste, já o contrário não acontece”, ressalta.
A diretora afirma ter ficado surpresa com a receptividade obteve do público e da crítica. “Fizemos temporadas lotadas em São Paulo e no Rio de Janeiro e ganhamos prêmios muito importantes. É uma grande vitória para nós. Acho que o público acaba se identificando muito porque a montagem não diz respeito apenas ao nordeste, é uma aula sobre a história do Brasil”, avalia.
A montagem conta com a atuação dos atores Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros, e dramaturgia assinada por Pablo Capistrano e Henrique Fontes.
Serviço:
“A Invenção do Nordeste”, com Grupo Carmin (RN)
Quando – Terça (20) e quarta-feira (21), às 20h30
Onde – Teatro Ouro Verde (R. Maranhão, 85)
Quanto – R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)
Pontos de venda - Óticas Diniz, Empório Amadeus (Mercadão da Prochet - Avenida Harry Prochet, 305 - Box 95 – de terça a sexta, das 12h às 22h; sábado, das 10 às 20h; domingo, das 10h às 14h)e www.diskingressos.com.br


