Woody Allen revisita e confunde Édipo
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
Arquivo FolhaHelena Bonham-Carter e Woody Allen em Poderosa Afrodite: pai adotivo parte em busca dos verdadeiros pais da criançaVinte e sete filmes em 27 anos de carreira. Por trás dessa perfeição aritmética, um criador no auge de sua potencialidade aos 60 anos. Poderosa Afrodite (previsto para as 20h30 na HBO, mas com ingresso dando direito antes a 30 minutos de bastidores e making off) é mais um achado de um dos raros cineastas vivos a quem se pode chamar de autor, esta figura hoje em franco desuso.
Comédia romântica contemporânea, Mighty Aphrodite traz o casal Lenny e Amanda Weintrib vivendo em Nova York um aparente momento de harmonia matrimonial e realização profissional. Ele (Woody) é comentarista esportivo especializado em boxe; ela (Helena Bonham-Carter) dirige uma galeria de arte. Decidem adotar um filho. Os anos passam e o pequeno Max cresce bonito e inteligente. Tão bonito e inteligente que desperta a curiosidade do pai adotivo. Atormentado por esta paternidade por procuração, Lenny decide descobrir a identidade da mãe natural do garoto. Que afinal se revela prostituta e atriz de filmes pornô, Linda (Mira Sorvino) , cujo atributo menos evidente é a inteligência.
O título, obviamente, refere-se à deusa do amor na mitologia grega. E a história tem tudo a ver com situações e personagens mitológicos. Ou quase. A maneira como roteiro e direção trabalham o material é que dá ao filme charme irresistível e o deixa hilariante às voltas com Édipo, em anos recentes mais e mais um tema recorrente na mitologia existencial e cinematográfica de Woody Allen. Logo no início ele coloca em cena um coro de tragédia grega, liderado com muita verve pelo ator F. Murray Abraham, o Salieri de Amadeus. O personagem observa e comenta a ação que se passa no momento presente, em Nova York. Mas ao contrário do que os condicionamentos dramáticos de cena impuseram ao longo de séculos, o que o espectador vê neste coro clássico da tradição teatral grega é um grupo de argutos e sarcásticos comentaristas urbanos, para quem nada é sagrado, em especial a postura cênica devidamente realinhada por uma inspirada coreografia de musical da Broadway.
Se ocorre aqui uma verdadeira comédia, também ocorre aqui o primeiro filme onde Woody-ator não oferece um dos principais papéis femininos a alguma mulher de sua vida, recente ou não, embora um dos temas tratados - a adoção e seus problemas - se refira claramente à sua história com uma delas. Mas Woody não faz o gênero de acertar contas na tela, e antes de cometer panfletagem de qualquer espécie, ele prefere simplesmente se divertir. Como também se dá o direito de abordar no filme outro ponto delicado, as relações entre homens e prostitutas. Mas aqui também, em lugar de qualquer julgamento moral, o que se obtém é pura comédia de situações e cenas hilariantes entre Woody-Lenny e o personagem perfeito criado por Mira Sorvino.
É bom ainda ver uma certa mobilidade extra-nova-iorquina (as locações escolhidas para as cenas com o coro são sicilianas), coisa que não acontecia desde Bananas, realizado há 25 anos. E há em Poderosa Afrodite outros momentos de reconciliação com um passado de puro burlesco e nonsense, particularmente na sequência onde o personagem de Woody vai ao centro de adoção e tenta obter o endereço da mãe do garoto. E há, é claro, esta idéia deliciosamente improvável e insana de a narrativa seguir comentada por um coro de tragédia grega, tão solene quanto escrachado. Não é de todo improvável que as recentes contrariedades de ordem jurídica enfrentadas por Woody e que acabaram expondo em praça pública alguns detalhes íntimos de sua vida tenham sido exorcizadas através deste coro.
Mais uma vez compondo um casting ao mesmo tempo inédito e impecável, onde ninguém intepreta fora de tom, o sexagenário Woody Allen parece em estado de graça com a vida e com o ato de criar. Poderosa Afrodite é o mais sereno e inspirado filme do diretor no período pós-Mia Farrow. Nós, da platéia, só temos a agradecer. E esperar a estréia de Everyone Says I Love You, musical com Julia Roberts, Drew Barrymore, Goldie Hawn e Alan Alda.


