Woody Allen na mira da câmera
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terça-feira, 04 de agosto de 1998
Agência Folha 
É muito mais divertido ver Na Cama com Madonna, o filme da turnê Blonde Ambition, de Madonna, do que este Wild Man Blues, documentário da turnê do septeto de dixieland de Woody Allen pela Europa em 1996.
O problema aqui talvez seja a predominância de seres assexuados - não há qualquer referência a sexo no filme, mesmo tendo Wild sido filmado em grande parte nas extravagantes suítes que acomodaram Allen e sua mulher e ex-enteada Soon-Yi Previn durante a turnê. (Não os vemos nem a tomar banho.)
E o que dizer então de seu entourage? Saem os apolíneos bailarinos e as lúbricas backing vocals de Madonna e entram músicos sexagenários, barrigudos.
Em vez da sacanagem e do who-ate-who tão comum de uma turnê, a enxaqueca, os menus de restaurantes. Apesar disso tudo, é difícil dizer que Wild seja um documentário comedido em sua intenção de flagrar a intimidade de Allen. É bem possível que Allen não tenha vida sexual ativa, ou que ela não tenha grande importância em seu dia-a-dia.
Mas parece mesmo que vemos Allen todo lá. De seu mau humor nas cabines de avião, sua inadequação sobre esteiras eletrônicas, seu pateticismo diante de fãs e o medo sempre evocado ao deixar o casulo nova-iorquino, nada parece soar tão fidedigno. E o susto do cineasta-clarinetista ao ver platéias lotadas, fãs ruidosos esperando por um aceno na porta do hotel - um dos grandes momentos do filme, quando ele pergunta a Soon-Yi e à irmã Letty Aronson: Mas será que eles estão esperando por mim mesmo, Mick Jagger não está hospedado aqui?- e as inúmeras recepções de que é obrigado a participar imprimem uma dinâmica que substitui perfeitamente o sexo. Não parece ser à toa que o assédio de fãs e autoridades atinge o paroxismo justamente na Itália.
Os temas de Nino Rota que a diretora Barbara Kopple usa embalam diversas homenagens a Allen, uma delas feita por uma corporação de bombeiros - num show em Milão, houve queda de energia, mas Allen conseguiu continuar a apresentação, o que teria evitado uma crise de pânico na audiência. Allen se sente profundamente entediado com essas recepções, mas não as recusa - prefere quando os prefeitos não sabem falar inglês - e chega mesmo a organizar uma entrevista coletiva a despeito de sua agorafobia.
Permite-se um momento de transgressão ao recusar que um apresentador diga antes do show: Senhores e senhoras, Woody Allen. Paradoxalmente, é justamente quando a turnê acaba e Allen se reúne com seus pais que vemos seu maior momento de intimidade. O pai, nonagenário, fica a acariciar todos os troféus e comendas que o músico ganhou durante a turnê, dando importância apenas àqueles que trazem inscrições. A mãe, inquirida, lastima o fato do filho não ter seguido uma profissão mais assentada, como a de farmacêutico. Diante de Soon-Yi, lamenta que Allen não tenha casado com uma judia.
Por fim, para quem vê no jazz apenas um pretexto para uma documentarista seguir um personagem famoso, é bom saber que lá pelas tantas Allen afirma achar que a maior contribuição às artes que ele poderia dar é justamente tocar os temas old fashioned de Nova Orleans em seu clarinete.


