Woody Allen é o primeiro cineasta trés-chic do cinema americano, capaz de filmar personagens em L.A. (Los Angeles) ou em Manhatam com a mesma desenvoltura e espontaneidade com que Ford filmou no deserto do Arizona ou que Hitchcock filmou sua América encantada de papel-crepom de estúdio.
Allen é o primeiro cineasta a colocar a burguesia americana frente a uma câmera, em filmes tão sofisticados quanto civilizados como ‘‘Annie Hall’’, ‘‘Manhatam’’, ‘‘Interiores’’, ‘‘Memórias’’ ou ‘‘Sorrisos de Uma Noite de Verão’’.
Dizemos que foi o primeiro a colocar a burguesia americana em cena porque pela primeira vez se vê ‘‘gente chic’’, ‘‘real’’, de ‘‘carne-e-osso’’, participando do décor burguês e não caricaturas ou estilizações hitchcoco-preminguero-minnello-cuckorianas.
Esta preocupação ‘‘realista’’ ou mais propriamente ‘‘verista’’ o leva ao lugar privilegiado de um novo Stroheim ou mesmo de um futuro Sternberg. A posição de Woody Allen não é também anedoticamente ‘‘anti-Hollywood’’, o que lhe permite incorporar elementos de base importantes de mise-en-scéne hollywoodiana para fazer ‘‘outra coisa’’, que tanto pode ser cinema da ‘‘moda’’ quanto uma alternativa válida entre Underground/Hollywood, sem se comprometer a priori com parâmetros delimitadores ou cerceantes de liberdade de expressão.
Woody é, por isso mesmo, talvez o primeiro ‘‘autor’’ no sentido ‘‘truffautiano’’ do cinema americano, na homenagem consciente a Fellini (‘‘Memórias’’), Bergman (‘‘Interiores’’), ou Ophuls (‘‘Sorrisos’’), e no acabamento artístico exemplar e único de seus filmes, tomando diante deles a mesma atitude que tomam os melhores cineastas europeus de vanguarda, no seu autoconsciente ‘‘autorismo’’.
De repente, o cinema de Woody é possível no mercado americano e isto é sinal de que realmente, como diz a música de Dylan, ‘‘Os tempos estão mudando’’, pois nenhum outro diretor americano havia reivindicado o seu lugar ao sol no panteão de uma maneira tão objetiva a ponto de deitar num sofá e expor suas preferências artísticas (‘‘Manhatam’’) ou de fazer uma homenagem declarada a seu mestre, o sueco Bergman no moderníssimo ‘‘Interiores’’, copiando, linha por linha, ponto por ponto, todas as ‘‘idiossincrasias’’ e ‘‘grafias’’ do estilo bergmaniano.
Com ‘‘Sorrisos de Uma Noite de Verão’’ é ao cinema do austríaco Max Ophuls que a câmera do cineasta dirige sua homenagem, ao universo absolutamente ‘‘civilizado’’ e ‘‘elegante’’ do diretor de ‘‘Carta de uma Desconhecida’’.
Finalmente com ‘‘Zelig’’, ‘‘A Rosa Púrpura do Cairo’’, ‘‘Hanna e Suas Irmãs’’, ‘‘Dias do Rádio’’ e ‘‘Setembro’’, Allen veio a se afirmar como o melhor diretor americano da atualidade.

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