Woody Allen e o discreto charme da burguesia americana
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sexta-feira, 07 de agosto de 1998
Lélio Sotto Maior Junior 
Woody Allen é o primeiro cineasta trés-chic do cinema americano, capaz de filmar personagens em L.A. (Los Angeles) ou em Manhatam com a mesma desenvoltura e espontaneidade com que Ford filmou no deserto do Arizona ou que Hitchcock filmou sua América encantada de papel-crepom de estúdio.
Allen é o primeiro cineasta a colocar a burguesia americana frente a uma câmera, em filmes tão sofisticados quanto civilizados como Annie Hall, Manhatam, Interiores, Memórias ou Sorrisos de Uma Noite de Verão.
Dizemos que foi o primeiro a colocar a burguesia americana em cena porque pela primeira vez se vê gente chic, real, de carne-e-osso, participando do décor burguês e não caricaturas ou estilizações hitchcoco-preminguero-minnello-cuckorianas.
Esta preocupação realista ou mais propriamente verista o leva ao lugar privilegiado de um novo Stroheim ou mesmo de um futuro Sternberg. A posição de Woody Allen não é também anedoticamente anti-Hollywood, o que lhe permite incorporar elementos de base importantes de mise-en-scéne hollywoodiana para fazer outra coisa, que tanto pode ser cinema da moda quanto uma alternativa válida entre Underground/Hollywood, sem se comprometer a priori com parâmetros delimitadores ou cerceantes de liberdade de expressão.
Woody é, por isso mesmo, talvez o primeiro autor no sentido truffautiano do cinema americano, na homenagem consciente a Fellini (Memórias), Bergman (Interiores), ou Ophuls (Sorrisos), e no acabamento artístico exemplar e único de seus filmes, tomando diante deles a mesma atitude que tomam os melhores cineastas europeus de vanguarda, no seu autoconsciente autorismo.
De repente, o cinema de Woody é possível no mercado americano e isto é sinal de que realmente, como diz a música de Dylan, Os tempos estão mudando, pois nenhum outro diretor americano havia reivindicado o seu lugar ao sol no panteão de uma maneira tão objetiva a ponto de deitar num sofá e expor suas preferências artísticas (Manhatam) ou de fazer uma homenagem declarada a seu mestre, o sueco Bergman no moderníssimo Interiores, copiando, linha por linha, ponto por ponto, todas as idiossincrasias e grafias do estilo bergmaniano.
Com Sorrisos de Uma Noite de Verão é ao cinema do austríaco Max Ophuls que a câmera do cineasta dirige sua homenagem, ao universo absolutamente civilizado e elegante do diretor de Carta de uma Desconhecida.
Finalmente com Zelig, A Rosa Púrpura do Cairo, Hanna e Suas Irmãs, Dias do Rádio e Setembro, Allen veio a se afirmar como o melhor diretor americano da atualidade.


