Woody Allen diz a revista ser o menos intelectual dos seres18/Mar, 17:28 Por Luiz Zanin Oricchio São Paulo, 18 (AE) - Pode haver cineasta mais cerebral do que Woody Allen? Aparentemente, não. No entanto, ele mesmo se diz o menos intelectual dos seres deste planeta, na entrevista concedida à revista francesa "Lire" de fevereiro. Mas, claro, todo mundo sabe que Allen, como um Fernando Pessoa nova-iorquino é sobretudo um fingidor. À medida que vai respondendo às perguntas de Pierre Assouline, toda a sorte de influências literárias vão aparecendo. Qualquer pessoa que conheça os filmes de Allen sabe quais são essas influências e ele não as esconde. Por exemplo, há muito de Checkov em "Hannah e Suas Irmãs". Allen fala também de Joyce, a propósito do novo longa-metragem dele, ""weet and Lowdown", sobre um guitarrista fictício baseado na vida de Django Reinhardt. Quando Assouline lhe pergunta se decidiu fazer esse falso documentário sobre o jazz porque a música seria uma linguagem universal, Allen responde que sim. Mas acrescenta que não haveria, no fundo, nada mais musical do que a prosa de James Joyce. Basta lembrar de "Finnegan's Wake" que, se diz, Joyce escrevia tentando captar a sonoridade de um riacho. A literatura russa de há muito faz parte do imaginário do escritor. Ele tem uma boa piada a respeito. Afirma que, depois de aprender leitura dinâmica, conseguiu ler "Guerra em Paz", de Tolstoi, em 20 minutos. Reteve quase tudo. "É sobre a Rússia", diz. Dostoiewsky foi lido com mais vagar. "Notas do Subsolo", por exemplo, um mergulho vertical no pesadelo humano, pode ser um próximo projeto para filme. "Caso resolvesse adaptá-lo, eu mesmo faria o personagem principal", diz. Ao contrário de muitos cineastas pouco chegados à leitura, Allen não se prende ao formato naturalista, mais imediatamente "traduzível" para o cinema. Adora Beckett. Contra toda expectativa, acha que "Esperando Godot" é o tipo de texto que reenvia uma pessoa diretamente às preocupações do dia-a-dia. Allen lê, é culto e escreve regularmente. Vários dos livros dele foram traduzidos para o português, como "Cuca Fundida", "O Nada e Mais Alguma Coisa", "Sem Plumas" e "Que Loucura!", entre outros. Textos ágeis, engraçados, inteligentes. A mais recente incursão dele na literatura aparece na edição comemorativa dos 75 anos da revista "The New Yorker". Trata-se de um conto, "Attention Geniuses: Cash Only". Aliás, a "The New Yorker" esbanja charme e inteligência nessa edição. Além de Allen, comparecem grandes colaboradores, como Janet Malcolm, escrevendo sobre a devoção a Checkov, e John Updike resenhando o livro de David Allyns, "Make Love not War". A revista publica ainda textos de gente que escreveu para ela e morreu ou se aposentou, como John Cheever, Vladimir Nabokov e Pauline Kael. Difícil escolher o que há de melhor nesse número. Uma boa aposta seria o artigo "The Old Man and the Boy", de Jon Lee Anderson. Anderson passou vários anos em Cuba, preparando uma biografia de Che Guevara, que lançou em 1997, nos 30 anos de morte do guerrilheiro. Volta a Havana para tentar entender o segredo da permanência no poder de Fidel Castro. O título refere-se ao affair do garoto Elian González e o uso político do caso. Um modelo de reportagem imparcial. E, sobretudo, bem escrita.