Já se tornou tradição mútua. Todos os anos Woody Allen exibe seu filme mais recente em Veneza, fora de concurso e em premiSre européia. Às vezes ele vem, outras não. E quando está aqui se refugia no Hotel Cipriani, mas pode ser encontrado a qualquer momento passeando pelas ruas da cidade. Este ano não veio, mas para alegria geral enviou a comédia ‘‘Small Time Crooks’’. E a crítica internacional que cobre Veneza, por seu turno, já tem a fórmula pronta para o registro. Assim como o diretor repete o hábito e tradicionalmente bate o ponto, também os jornalistas tratam de se repetir. Com prazer renovado, é obrigatório acrescentar. Pois o cinema de Allen é refrescante, jovial, hilariante.
E mesmo quando se repete, a reincidência parece novidade.
Neste 31º longa-metragem, Allen está de volta às origens de sua comicidade e da carreira como diretor quando, com ‘‘Um Assaltante Bem Trapalhão’’(Take the Money and Run, 1971), colocava em cena a improvável ação criminosa de um ladrão medíocre, envolvido num turbilhão de nonsense. Agora, com ‘‘Small Time Crooks’’, ele retoma o tema. O filme narra as vicissitudes de um casal de meia idade, ele (o próprio), ex-lavador de pratos, ela (Tracey Ullman) manicure. Os dois, com o concurso de outros três pés-de chinelo (a tradução mais próxima e condizente com o espírito do original ‘‘small time crooks’’), decidem assaltar um banco. A estratégia é simples: alugar um imóvel vizinho, onde funcionava uma pizzaria, abrir um túnel e pronto: pegar o dinheiro e fugir. Como fachada, uma pequena fábrica de biscoitos. A incompetência da quadrilha é generalizada, e o plano acaba tomando literalmente um outro rumo: o túnel do lado contrário acaba dando num salão de beleza. Enquanto isso, a pequena indústria de biscoitos caseiros dá certo, deixando todos milionários e descortinando novos horizontes para o pequeno grupo de trapalhões.
É evidente que, no decorrer dessas três décadas e trinta títulos - um ao ano, recorde de regularidade - o estilo e o humorismo de Woody se sofisticaram , tanto que em muitos filmes assistimos à contaminação de outros gêneros e de registros diversos, da sátira social (‘‘Sombra e Neblina’’, ‘‘Celebrity’’) à autobiografia ( ‘‘Noivo Neurótico, Noiva Nervosa’’, ‘‘Stardust Memories’’), da ambientação musical ( ‘‘Todos Dizem eu te Amo’’) à reflexão intimista (‘‘Manhattan’’, ‘‘Setembro’’, ‘‘Crimes e Pecados’’, ‘‘Interiores’’), dosando em modo e quantidade, todas as vezes, o lado irônico com a abordagem mais séria.
Também aqui a idéia narrativa se abre para uma leitura social e satírica onde se enquadram os personagens. O recado de Allen, leve e solto, desprovido de qualquer juízo de valor ou rigor na avaliação, parece endereçado aos novos ricos, aos materialmente afortunados de ocasião. Embora a primeira parte do filme seja a mais divertida, é na metade final que Allen acentua suas observações sobre riqueza e pobreza, sobre luxo e ostentação. O filme, nestes momentos, perde um pouco o ímpeto quase adolescente com que busca (e encontra) de início o riso fácil, o gag mais explosivo, a intimidade com o pastelão. Quase ao final, ‘‘Small Time Crooks’’ retoma a boa trilha e novamente estimula a cumplicidade.

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