Wilmar Klein
De Curitiba
Especial para a Folha 2
Se o fato de um respeitável autor de ficção ou um igualmente respeitável poeta escrever críticas sobre outros autores constitui, no mais das vezes, uma recomendação a essas mesmas críticas (afinal ele é gente ‘‘do ramo’’ e conhece intimamente os meandros da criação literária), o inverso - ou seja, um crítico respeitável atrever-se a incursionar no território da ficção - é, quase sempre, visto com desconfiança e coloca em risco a reputação do autor, que, abrindo mão de sua confortável posição de crítico, expõe-se a uma bem provável desaprovação por parte dos outros críticos. Pois bem... em 1946, quando foi editado nos EUA o seu ‘‘Memoirs of Hecate County’’ - agora, finalmente, traduzido no Brasil (por Rubens Figueiredo e Bernardo Carvalho) e lançado pela Companhia das Letras -, Edmund Wilson já era reconhecido como um dos maiores críticos e historiadores da literatura norte-americanos, graças a obras hoje clássicas como ‘‘O Castelo de Axel - Estudo Sobre a Literatura Imaginativa de 1870 a 1930’’ e ‘‘Rumo à Estação Finlândia’’ (que, editado em nosso País pela primeira vez em 1986, pela mesma Companhia das Letras, tornou-se um inesperado best seller). É bem verdade que Wilson já publicara três dos seis longos contos que compõem as ‘‘Memórias do Condado de Hecate’’ nas revistas ‘‘Atlantic Monthly Partisan Review’’ (dois deles) e ‘‘Town & Country’’, porém enfeixá-los num livro emprestou-lhes, bem como às demais narrativas, outra dimensão, demostrando que o crítico não pretendia que fossem encarados como meros exercícios ficcionais ou divertissements.
Logo na nota de abertura da reedição do livro, em 1980, pela Nonpareil Books, de Boston - que traz um prefácio assinado por John Updike -, o próprio Wilson afirma que, dentre os muitos livros que escreveu, ‘‘Memórias’’ é o seu favorito e nunca entendeu por que os leitores que se interessavam por sua obra nunca deram maior atenção a ele. Deve ter entendido menos ainda quando, à época da primeira edição, um tribunal de Nova York considerou o livro obsceno e proibiu a sua venda naquele estado. Bem... o ‘‘Ulysses’’, de James Joyce, também sofreu a mesma acusação de obscenidade, e ‘‘Memórias do Condado de Hecate’’ com menos razão ainda pode ser considerado obsceno. É, porém, um livro realista, repleto de erotismo (confira-se, em especial, a história ‘‘A Princesa dos Cabelos Dourados’’), e nestes dois aspectos concentraram-se os críticos da época, que não puderam negar as qualidades literárias da obra, mas, em geral, não se ocuparam daquilo que confere unidade às narrativas: os temas do bem e do mal que as perpassam como um caudal subterrâneo - notadamente em ‘‘O Homem que Atirava nos Cágados’’, ‘‘Os Milholland e sua Alma Condenada’’- esta, uma versão mais moderna e prosaica da lenda de Fausto - e em ‘‘O Sr. e a Sra. Blackburn, em Casa’’. Não é, portanto, casual o título do livro: Hecate é a forma como os americanos grafam Hécate, nome de terrível deusa infernal; o condado é a Nova York dos anos 20 e 30, que Wilson conheceu e descreveu tão bem.
Quem foi Wilson
Nascido em Red Bank, Nova Jersey, a 8 de maio de 1895, Edmund Wilson, desde as suas primeiras obras, firmou-se como um dos mais consistentes críticos literários dos EUA. Humanista erudito, era dono de um estilo onde naturalidade, elegância, inteligência e lucidez se somavam de modo a tornar compreensíveis obras ‘‘difíceis’’ como o ‘‘Ulysses’’ e o ‘‘Finnegans Wake’’, de Joyce, e ‘‘Em Busca do Tempo Perdido’’, de Proust - livros cujas qualidades soube reconhecer quando ainda eram desconhecidos ou menosprezados pela maioria dos críticos norte-americanos. ‘‘Wilson’’, escreveu Paulo Francis no prefácio da coletânea ‘‘11 Ensaios’’ (Companhia das Letras, 1991), por ele organizada, ‘‘foi talvez o último crítico literário de uma grande tradição que começa com Sainte-Beuve, em que o crítico desafia e enfrenta o autor, de indivíduo para indivíduo’’.
Autor de ‘‘O Castelo de Axel’’, ‘‘Raízes da Criação Literária’’, ‘‘Rumo à Estação Finlândia’’, ‘‘Sangreira Patriótica’’, ‘‘Upstate New York’’ (os dois últimos, inéditos no Brasil), produziu uma obra extensa e lúcida, fato que se torna mais notável quando se sabe que Wilson era alcoólatra, consumindo pelo menos uma garrafa de uísque e várias de vinho diariamente. Casado quatro vezes (sua terceira esposa foi a escritora Mary McCarthy, que o satirizou no romance ‘‘A Charmed Life’’), viveu seus últimos anos de vida numa casa colonial herdada de sua família, onde continuou bebendo e produzindo obras notáveis com a mesma intensidade. Edmund Wilson morreu no dia 12 de junho de 1972. E os EUA nunca mais tiveram um crítico tão bom quanto ele.(W.K.)

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