Curitiba - Considerado sobrevivente de um gênero em extinção, o crítico literário Wilson Martins tem a sua obra mais uma vez reconhecida pela Academia Brasileira de Letras (ABL). O escritor recebe no próximo dia 19, um dos maiores prêmios da literatura brasileira: o Prêmio Machado de Assis. A homenagem é concedida pelo conjunto da obra do autor. Martins escreveu, entre outros livros, a ''História da Inteligência Brasileira'', calhamaço publicado em sete volumes pela Editora Nova Edição e que lhe rendeu por duas vezes o Prêmio Jabuti. Essa é a segunda vez que a ABL reconhece o trabalho do escritor. Em 1997, ele ganhou o Prêmio Ermírio de Moraes.
Formado em Direito e Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), o escritor paulista radicado em Curitiba tem uma trajetória de mais de seis décadas analisando, discutindo e criticando obras literárias, sempre com uma característica bastante peculiar e acima de tudo polêmica. Suas críticas são publicadas nos mais importantes jornais do País e os seus livros são resultado de pesquisas contundentes. Ele falou à Folha sobre o importante reconhecimento da ABL, que recebe no ano em que comemora 81 anos, e sobre o seu mais novo trabalho: ''A Idéia Modernista'', livro que será lançado no dia da entrega do Prêmio Machado de Assis, no Rio de Janeiro.
O Prêmio Machado de Assis é concedido ao conjunto da obra de um escritor e não a um trabalho específico, como o senhor recebe esse prêmio?
Ninguém de bom senso espera receber um prêmio desses. É o maior prêmio literário do Brasil, não só em termos financeiros, mas também pela categoria, pela repercussão e pelo gabarito que atribui ao autor. O prêmio abrange toda uma carreira literária e é concedido a um autor que durante toda a sua vida manteve a qualidade da produção. Para um escritor isso é mais que uma recompensa, é uma consagração. É um prêmio que não depende de inscrição, uma comissão escolhe alguns nomes e premia de acordo com essa primeira seleção. E nessa atribuição, a Academia sempre tem apontado escritores que se destacaram na vida literária.
E se o senhor estivesse do lado da comissão que escolhe esses nomes, quem o senhor elegeria?
Agora estou numa situação moral muito complicada. Não posso nem desmerecer, nem sugerir outros nomes. É uma questão de ética, de discrição. Devo fechar a minha boca e receber o prêmio quietinho.
Como o senhor analisa o momento literário que estamos vivendo? Podemos dizer que a crítica morreu?
A crítica realmente já teve períodos muito mais brilhantes do que hoje. Nos anos 30 e 40, por exemplo, a crítica brasileira estava muito bem representada por grandes nomes, como Álvaro Lins e Antonio Cândido. Eles exerceram a crítica literária num alto padrão de qualidade e enorme influência sobre a vida literária. O Álvaro Lins, por exemplo, podia lançar um escritor ou destruí-lo. Como quando apareceu, em 1946, um livro fininho com uma capa horrorosa de um autor desconhecido e Lins escreveu um grande artigo. Esse escritor era o Guimarães Rosa e o livro era o ''Sagarana''. Com o artigo, Álvaro Lins lançou o Guimarães Rosa. E uma das qualidade do bom crítico é justamenta essa: quando ele reconhece a qualidade da obra tem que dizer. Não dá para ter medo de ter opinião.
O senhor mesmo tinha uma posição bem peculiar a respeito de Guimarães Rosa que se tornou bastante polêmica...
Era peculiar no sentido que eu me distingui daqueles grupos de turiferários que o Rosa despertou. Eu escrevi uma coisa que naquele tempo parecia um sacrilégio, dizendo que ele era realmente um contista e não um romancista e todo mundo caiu de pau em cima de mim. Muitos anos depois, o Guimarães Rosa deu uma entrevista dizendo ''eu sou um contista. Eu não sou um romancista''. Eu já tinha mencionado que o ''Grande Sertão Veredas'' não era um romance e sim uma série de contos justapostos. Quando o crítico tem uma opinião clara sobre um determinado assunto não deve ter medo de ser mal recebido ou de errar. Errar é um dos riscos da profissão. Mas há esse consolo, com o passar do tempo, aquilo que é considerado um erro é reconhecido como uma idéia exata.
O tempo é também determinante para definir os bons escritores? É possível saber hoje quem vai ter uma obra significativa para a história literária?
O julgamento contemporâneo é um julgamento arbitrário e passageiro, mas não há regras. Há autores que são endeusados em determinado período e mais tarde toda a opinião literária desmente esse favoritismo e também acontece o contrário. Por isso que na vida literária há essas revisões, essas redescobertas. Às vezes a redescoberta é verdadeira, outras é um simples capricho passageiro em redor de um autor.
O jornalista Toninho Vaz prepara a biografia do Torquato Neto, como tributo ao aniversário de 30 anos de morte do poeta. Torquato foi um fenômeno que deixou poucas obras escritas, mas com grande repercussão. O que você acha da obra dele?
Esse é um típico caso de glória efêmera e circunstancial. Torquato surgiu no momento que aquele tipo de literatura estava na crista da onda. É muito curioso isto porque a opinião pública se forma um pouco pelas modas, mesmo em crítica literária. Por exemplo, há uma certa moda hoje em dia de achar que o Manoel de Barros é um grande poeta.
E não é?
Na minha opinião ele não é nada, não é nem grande poeta, nem poeta. Mas é considerado por bons julgadores porque ele está respondendo a um certo clima intelectual, que nós podemos chamar de clima ecológico. Ele é o poeta das florzinhas, das minhocas, dessa coisa toda... E esse é um caso típico de moda literária. O Paulo Coelho também, mas num ponto diferente... Ele responde a um clima de misticismo que vive o Brasil nos últimos anos. Os anjos, a literatura bíblica tornaram-se moda que o Paulo Coelho simplesmente copia e parafrasea. Fazendo isso, o leitor comum tem a impressão de já estar lendo uma grande literatura, porque ele está lendo aquilo que ele já conhece.
E isso é bem recebido por que é uma literatura mais fácil, mais palatável?
Esse é o problema. Essa literatura está ao nível mental do grande público. Mas é preciso reconhecer que a qualidade literária não é única, ela vem em patamares. Há grupos de leitores que só podem contribuir para uma literatura de uma qualidade menos importante, mais fácil de ler. E há autores mais difíceis, que em geral são considerados os grandes escritores. Vamos tomar como exemplo um caso oportuno: estamos comemorando agora o aniversário de ''Os Sertões''. É um grande livro, um clássico da literatura universal. Mas quem lê Paulo Coelho não gosta de ''Os Sertões'', é uma coisa evidente. Esses níveis de leitura são importantes para o julgamento literário.
E como o senhor avalia o momento literário que estamos vivendo?
Não há nesse momento um número de bons romances como nos anos 30. Nessa época, os bons romances saiam todas as semanas, era uma coisa espantosa. Lins do Rego, Jorge Amado, Eça de Queiroz. Foi um momento de mais efervescência intelectual, mas há momentos mais pobres.
Estamos em um momento pobre atualmente?
Essa pobreza varia em favor ou desfavor de certos gêneros. Nós não estamos num bom momento de ficção, por exemplo. Tanto os romances como os contos lançados são realmente fracos em geral, em matéria de qualidade e quantidade. Mas no campo de poesias há uma produção enorme. Tanto de poetas mecânicos que escrevem como qualquer pessoa, como os de alta qualidade como Geraldo Melo Mourão e Affonso Romano de Sant'Anna. Mas eu tenho uma teoria pessoal de que o mundo ainda não tomou conhecimento de que a sub-literatura ou a literatura secundária é o caldo de cultura das grandes obras. Essa expressão ''caldo de cultura'' vem da medicina, da biologia. É o caldo onde se criam os vermes, as micróbios as amebas para estudo. Minha teoria é de que são necessários numerosos escritores para se produzir um bom escritor, ou vários bons escritores, para não sermos muito pessimistas.
Como o senhor escolhe os seus livros?
Eu não escolho. Eu leio todos os livros que as editoras me mandam, mas tenho o meu método. É o método das dez páginas, das 20, das 30 páginas. Há livros que você lê dez páginas e pode jogar fora, sabe que o resto não pode ser melhor do que aquilo. Mas há situações em que a primeira frase do livro já te conquista. Você está perdido. Tem que acabar de ler até o fim. A regra é a seguinte: o crítico não precisa ler todo o livro para saber se a obra é boa ou não. Ele tem já nas primeiras páginas a presunção de que aquilo é bom, pode vir a ser bom ou que é uma porcaria. Com isso, eu leio praticamente tudo.
E o seu mais recente livro, ''A Idéia Modernista'', como o senhor o define?
O livro é uma idéia da idéia do modernismo. Nesse livro eu estabeleci o seguinte critério: em qualquer escola literária sempre há autores fundamentais e obras representativas. Nem sempre um ator fundamental escreve uma obra representativa e vice-versa. Por exemplo, o Graça Aranha é um autor fundamental modernista, mas ele não escreveu nenhuma obra modernista fundamental. O Mário de Andrade também não deixou nenhuma obra fundamental. São obras episódicas que responderam a um certo momento cultural. O ''Macunaíma'', por exemplo, respondeu àquele momento de nacionalismo, sobretudo de nacionalismo amazônico. As obras representativas são aquelas que respondem aquela programa, aquelas idéias da escola literária. E o autor fundamental é aquele autor sem o qual você não pode escrever sobre aquele movimento literário. Não se pode ignorar o Graça Aranha na história do modernismo e nem o ''Macunaíma''. O modernismo foi uma escola de obras falhadas, porque eles nunca conseguiram fazer aquilo que eles queriam fazer.

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