Wilson Bueno
A imprensa dá que uma sonda da Nasa, viajando há alguns anos pelos espaços estelares, acaba de fotografar os Anéis de Júpiter. Sou do tempo em que existiam só os anéis de Saturno, poeira lunar em torno do planeta que os gregos um dia quiseram como a encarnação do Tempo.
Agora temos os Anéis de Júpiter, até então não fotografados, mesmo baixo a mais sofisticada tecnologia que o homem veio acumulando nas últimas décadas para perscrutar as distâncias incalculáveis. Sim, os Anéis de Júpiter, rastro gasoso de material celeste em espantosa rotação à volta do planeta.
O diâmetro de Júpiter é onze vezes maior que o da Terra, se possível conceber tamanha grandeza, com uma massa, pasmem!, 318 vezes superior, o que daria, pasmem de novo, para conter em si 1.300 planetas feito este nosso insensato terceiro planeta depois do Sol. Os Anéis de Júpiter percorrem, assim, órbitas prodigiosas, como se a engenharia perfeita de um deus os sincronizasse ao movimento imensurável do Universo.
Lembro aquele padre lusitano, nas ladeiras de Ouro Preto do século dezoito, o telescópio apontado para o céu, na mira de Júpiter e de suas pegadas, descrevendo depois o maior planeta do sistema solar como visto e enxergado com a magnitude ocular da Lua. Claro, mesmo num telescópio modesto, com aumento que não ia além de cinquenta vezes, observava Júpiter do tamanho de nossa velha lua. O que dá notícia, de novo, sobre a enormidão do planeta.
Gigantismo sobre o qual a nossa imaginação não cessa de se perguntar, sobretudo frente ao que, em Júpiter, é bem mais do que seus anéis, mesmo que recém-descobertos - a intrigante Grande Mancha Vermelha, um enigma para a Ciência, colossal sistema de tormentas, com extensão inúmeras vezes maior do que a Terra, pairando acima das nuvens jupterianas, num espetáculo de magnitude incalculável. Por que, ou para quê, é só uma rede de suposições.
Adivinhar o que de imenso, para além de toda fronteira concebível, é tarefa que se impõe para quem se devota a estas jornadas astrônomas, e não foi outro o exemplo e o empenho daquele mesmo padre luso sem nome, aqui já referido, e que, deixado ao léu pela crônica setecentista, acabou ficando apenas como o padre luso do telescópio de Vila Rica. Mesmo os grossos cadernos encardernados a couro que legou à piedosa Ordem Terceira do Carmo, não trazem, dele, qualquer assinatura, nome, sobrenome ou pseudônimo.
Mas o que tem a ver o padre luso-mineiro, que é só um buraco na memória, com o incalculável céu - há de perguntar o leitor atento. Bem mais que seu pioneirismo astrônomo, ao tempo em que a Inquisição poderia fritar-vos os ossos em azeite fervente, pela simples mania de especular as coisas do firmamento, o que chama atenção no padre e, por extensão, na Grande Mancha Vermelha de Júpiter, é essa insistência de vigirem, ambos, no Mistério - um no modesto mistério de deixar obra em vários tomos completamente anônima e o outro, de um tempestear cósmico, a pedir nos últimos séculos uma explicação.
Que, claro, nem a História e nem a Astronomia têm como dar.
Por ora, ao menos por ora - há sempre um velho baú do qual costumam saltar ossos e clarezas, assim como nunca cessará, dos humanos, o desejo de ampliar olhos na direção do Cosmos, nossa celeste morada.
Enquanto isso não acontece que nos distraiam os Anéis de Júpiter e a descrição pormenorizada que nos dá o padre remoto de um estranho objeto alcançado no firmamento pelo seu telescópio - não era sólido nem líquido nem gasoso; era, segundo ele, um pedaço do nada, porque passando a alta velocidade não o conseguia enxergar.





