Há muitos e muitos anos atrás, era uma vez um jabuti.
Arnaldo César, o seu nome, e não houve ninguém na Floresta que a ele não se afeiçoasse, adorando-lhe a carapaça fulva, rindo com ele o seu riso álacre e mordendo-lhe, vez em vez, o duro pescoço igual que um pedaço de lona ou beijando-lhe repetidamente a rugosa barbela deste mesmo pescoço, nem sempre disponível, como sói acontecer com o pescoço dos jabutis.
Linda era a Rã, precisam ver, nas ‘‘foto sessions’’ das tardes da Floresta, quando Arnaldo César dormia, estirada de comprido e lânguida sobre sua carapaça, os finos pés entrecruzados lá no final, com pose de misssssss, tensa e imóvel, enquanto o Lagarto, fotógrafo profissional, desperdiçava charme, clicando-a amorosa e incessantemente. O maior prêmio arrebatado pelo Lagarto, aliás, foi justamente uma foto da Rã sobre este mesmo nosso jabuti, Arnaldo César, só que ela, desta feita, sustentava entre os dedos, voluptuosa, uma piteira triunfal.
Agora, em cima de Arnaldo César, a Rã brinca de bailarina e equilibrando-se sobre a lisa carcaça já lhe procura a cabeça (a gente nunca sabe onde está a cabeça de um jabuti) e não a encontrando, atira ao público os confetes do seu beijo carmim de pop star. Vai longe, na Floresta, a fama da Rã, sua quase glória - melhor que posar nua para as revistas masculinas, é cantar rock-garagem nas tardes de sábado, ah, precisam ver, a Rã de peruca amarela, desbocada e gutural, rascante desesperata, estraçalhando ‘‘Cry, Baby’’, osso e focinho da Janis Joplin, só que mais magra, um pouquinho mais magra, e mais velha, vá lá e não se fale mais nisso.
Baixo saraivada de flashs do Lagarto que nunca escondeu de ninguém seu tesão pela Rã, ainda que a saparia reclame e dê a isso o nome de aberração, o Macaco, de gatinhas, se prontificou a empurrar Arnaldo César, nosso jabuti. ‘‘Vai parecer um carro alegórico de verdade, no instantâneo’’ - gritou pro Lagarto. Curioso, o Macaco sempre chamou fotografia de instantâneo, tem coisa atrás disso, ah se tem. Com o Macaco, já viu, sei não...
Claro que todos, de pronto, arrepiaram para o fato de que empurrando o jabuti, este iria acordar e aí, adeus sessão de fotos, tarde vip na Floresta, drinques vermelhos com gelo, maquilagens purpúreas, a lingerie da Rã num desvão da trilha, largada lá depois do amor, inocentemente. Para isto o Lagarto, nosso fotógrafo, despertou num pulo, mas já era tarde, e, lento, porém irreprimível em sua marcha quelônia, Arnaldo César, o jabuti, pôs para fora o pescoço, a cabeça e os olhos. Com a mesma cara impassível de dois mil anos atrás, não disse palavra, movendo-se sem pressa, mas de modo resoluto e com uma altivez que parecia brotar desta humildade essencial de que são feitos os jabutis, e da qual não escapava nem mesmo ele, Arnaldo César, apesar do nariz-alto, e de ser tido e havido, por muitos, sobretudo pelos inimigos, como a mais acabada representação zoológica do autêntico Come-Quieto da Floresta.
A um estremecer de Arnaldo César, - ou seria o contato da coxa da Rã com a carapaça do jaboti, como asseveram as más-línguas? - desestabilizada foi nossa modelo e pop star que escorregando do topo e caindo de mau jeito teve torcido seu frágil tornozelo. Aos murmúrios de ui, ui, a boquita carmim e os grandes cílios brotando à fímbria da pálpebra, Arnaldo César parou de novo e não conseguindo olhar para trás, dado os ombros, fez com minúcia e lentidão uma grande curva até estar na inversa posição em que se encontrava no começo.
E só então a viu de frente, machucada e nua. Quase chorando uma lágrima de tartaruga, Arnaldo César movimentou o pescoço num gesto - o de que o Lagarto a pusesse sobre o seu costado, onde, lépida e ferida, estirou-se de novo a Rã, nossa heroína. Implacável em sua marcha minuciosa, o jabuti, com o exemplo e a tácita solidariedade, não precisou dizer palavras, levando nossa Joplin, em triunfo, na direção do socorro mais próximo.
O Lagarto foi atrás, ah que foi, saltando e tirando fotos, até não mais ver sequer a silhueta de Arnaldo César, o jabuti, com a Rã, nossa prima-dona, enganchada nele, fazendo-lhe festa na calva túrgida, ferida logo no tornozelo, a magra, a saltitante, a dançarina.
Atrás de um arbusto o Macaco riu uma risadinha estrépita antes de desaparecer na Floresta.

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