Em menos de uma semana chegam-me ao tugúrio três livros de autores catarinenses - ‘‘Júlio Cortázar - A Viagem Como Metáfora Produtiva’’, de Joca Wolff; a segunda edição, revista e ampliada, de ‘‘Exeus’’, primorosa reunião de poemas de Dennis Radunz e a ‘‘poesia-de-câmera’’ de Fernando Karl, em ‘‘Diário Estrangeiro’’.
Os dois primeiros títulos foram publicados pela Letras Contemporâneas, ativa editora com sede em Florianópolis (Rua Presidente Coutinho, 311/ 11 - Cep 88 015-231), dona já de invejável catálogo, liderada pelo escritor Fábio Bruggemann, bela figura de polemista além de prosador de primeira linha. O livro de Karl, vencedor do Prêmio Cruz e Souza/1996, foi editado pela Fundação Catarinense de Cultura.
Dados os indispensáveis preâmbulos, nada melhor do que reviajar as viagens de Joca Wolff, por exemplo, no pequeno e intrigante ensaio, vero exercício de ‘‘ficção crítica’’ que tem em Júlio Cortázar, mais do que personagem principal, o seu ponto de partida. Ainda que concebido inicialmente como dissertação acadêmica, ou por isso mesmo, Joca detona todas as normas na ‘‘fricção’’ quase obsessiva com que atrita vida e texto, ‘‘realidade’’ (esta categoria dúbia) e literatura.
É no osso da metáfora que o pensamento de Joca Wolff centra o seu ponto ótimo de energia - aí demole os mitos, desengana os morituros, e entrelaça, numa féerie de esperança, o que de amor e tragédia no sumo de qualquer texto, o que de falas e demônios neste diálogo virtuosístico & virtualístico que será sempre o diálogo entre um escritor e outro escritor, não importando o tempo nem o espaço em que vigem.
Des-construir o que de mentira e fraude, o que de ilusão e delírio só o jogo in-sensato de escrever será capaz, fulgurando aí o melhor de sua faca afiada. De Júlio Verne a Júlio Cortázar - e aí está a sedução de Joca e seu pulo do gato - existe bem mais que uma homonímia e a ‘‘coincidência’’ de algumas viagens. Me parece que, acima de tudo, o que subjaz, de Júlio a Júlio, para ficar só neste detalhe, é uma que espécie de ‘‘condenação’’ interior que faz de escrituras tão díspares no tempo e no modo, uma só coisa, e única.
Condenados ao movimento, muita vez paroxístico, da viagem, Cortázar ou Verne, Oswald de Andrade ou W.H. Hudson, não importa o nome e nem a nacionalidade, deixam-se tragar e consumir pelo périplo mesmo com que viajam. No coração da correnteza, uns e outros - de onde não podemos excluir o próprio autor do ensaio que ‘‘se viaja’’ - vieram, no mínimo, para dizer do movimento o seu grito. E a sua exasperação.
O espaço é exíguo e muitas outras questões poderiam ser aventadas a propósito deste estimulante ‘‘Júlio Cortázar - A Viagem Como Metáfora Produtiva’’, mas deixo à vossa curiosidade, paciente leitor, indo ao livro, novos desdobramentos reflexivos, sem descartar nem mesmo aqueles que venham a contrariar tudo o que aqui se disse, ainda que em vôo breve, sobre a ‘‘fricção crítica’’ de Joca Wolff.
Já Dennis Radunz revém com seus poemas compostos baixo a exaltação com que se busca a palavra exata, na segunda edição de ‘‘Exeus’’. É uma poesia de síncopes e abismos, ainda que o poeta se proponha, desde sempre, a perseguir o silêncio que há por trás da sombra da palavra, esta meta invariavelmente inatingível. Assim: ‘‘abolir o rumor/ na barbárie do grito/ e rumar o abalo/ao abrigo da gruta/ não ruir/ abolir o bolor/ na blasfêmia do rito/ e remir o labor/no bailado da grita/rir.’’ É como se a palavra roesse a poesia por dentro, em busca de seu siso e de seu riso, e é bem ao que Dennis parece se propor, com raro empenho, nesta preciosa reunião de poemas que é ‘‘Exeus’’.
Enquanto isso, o poeta Fernando Karl repõe com solenidade quase clássica, ante nossos olhos leitores, a sua poesia-de-câmera, através ‘‘Diário Estrangeiro’’, título incomparável para este incomparável conjunto de poemas que abre com ‘‘Sonetos’’ e que passando por ‘‘As coisas, quando as olhamos’’, ‘‘Ishihana’’, ‘‘A fascinação pelo difícil’’, deságua em ‘‘Litanias’’, feito o rio e seu mar. Livro orgânico, exigente em sua concepção e na fixação de seu conceito.
Nunca será demais repetir que o fazer poético de Karl é um fazer que busca, através da palavra, instrumento imperfeito, o impossível coração da essência, módulo divino, com a angústia, desde já frustra e vã, de não conseguir nada, além do halo que entrediz, mas não revela, a cara do Deus. É uma poesia religiosa, a de Fernando Karl, de uma religião que é a religião que se sabe pequena demais para bater de frente com o Insondável. Mas é justamente neste propósito e nesta senda que, feito um incêndio, a poesia de Fernando Karl ilumina e reverbera - umas vezes labareda; outras, puro arco-íris.
Mais ou menos assim: ‘‘Dentro da igreja caveiras adiadas rezam/ fixando luz e silêncio./ Incham vasos e o altar se aguça./ Ontem, os olhos iluminaram o sol.’’ Ou ‘‘Morte: não acordar entre açucenas./ (...) Vida: inscrição de asa em asa.’’
Das reviagens de Joca Wolff às agruras da palavra em busca de uma certeza de Dennis Radunz, passando pelo adágios verbais de Fernando Karl, o que fica é a convicção renovada: aqui e ali, de modo rarefeito, mas quase sempre desassossegado, Santa Catarina mostra que há vida inteligente ao sul do sul da linha do equador.

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