Depois de 25 dias em Nova York, ouvindo pouquíssimo ou quase nenhum português, sou assaltado por um banzo desolador. Ando Manhattan de um lado a outro no limite de quase atravessá-la, de ponta a ponta, e me surpreendo num café do Soho, tomando um indefectível capuccino.
Até aí sou apenas um brasileiro com saudade de seu idioma e de sua terra, ou mais propriamente, um curitibano, com loucas saudades de seu bairro e de sua rua, de sua casa ao rés do chão no bom bairro da Boa Vista, com saudade dos amigos e, renitente solitário, um homem com saudade de seu cão.
Ao meio do capuccino, no simpático Café Kafka, entre estudantes que me pareciam da Dinamarca ou da Holanda, os mesmos cabelos de fogo e os mesmos olhos azuis, diviso, numa mesa ao fundo, pequenino e quase mudo, rapazote de um moreno ocre, o nariz enfiado num livro em todos os sentidos familiar. Ainda que tenha dificuldades para enxergar de longe, percebo que o livro é nada mais nada menos do que uma edição de ‘‘Gabriela, Cravo e Canela’’, de Jorge Amado, provavelmente da Martins Editora, com capa acho que de Di Cavalcanti.
Não me faço de rogado, e ensaiando uma ida ao banheiro, esbarro, na mesa ao fundo, com o rapazote moreno que não compreende o modo como eu o olho, quase pedindo um alô, um oi, a efusão com que brasileiros se abraçam sobretudo quando se esbarram no estrangeiro, mas nada, absolutamente nada - indiferente, os negros olhos vazios, chego a pensá-lo deficiente visual.
O mistério se desfaz quando volto do banheiro, e em retorno à minha mesa rente às vidraças do Café Kafka que dão para a rua, percebo que o rapazote moreno nem de longe lia Jorge Amado - ‘‘Gabriela’’ é apenas uma capa institucional da Knopf Editores que lhe protege um para mim quase incompreensível volumezinho todo em caracteres árabes, e só um título, em inglês - ‘‘Comentários do Corão’’.
Na mesa ao lado, os dinamarqueses, ou holandeses (ou seriam todos suecos?) riem longas risadas, igualmente elas ininteligíveis em português.
O rapazinho moreno que supus brasileiro, lendo Jorge Amado no original, é só um afegão que com saudades de Kabul estuda o profeta Mohamed e por certo me imagina um paquistanês chorando as ruas de Islamabad...
Tudo é tão triste no Café Kafka quando a noite cai que até o ruidoso encontro dos estudantes louros na mesa ao lado nada sugere de festivo, mas um modo que, imagino com áspera certeza, também eles encontraram para afastar rudes saudades escandinavas contra um fundo de entardecer no Soho, no transparente outono nova-iorquino de 1996.
Os dias impuros

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