Wilson Bueno
Não faz muito tempo, os meios acadêmicos parisienses se agitaram em torno de um seminário em vários sentidos instigante: o desafio, à primeira vista simples, de decifrar o ciúme, e, decifrando-o, desmontá-lo como quem desmonta uma máquina de insidioso veneno. Bem ao gosto de la democracie française, os eventos em torno do ciúme contaram até mesmo com a participação das ultra-organizadas prostitutas parisienses, num movimentado workshop ocorrido em Nanterre. Da representação do palhaço de rua às fechadas conferências onde se descarnou, do ciúme, o seu caroço, o tema foi um só - la jalousie. À francesa.
Quando, os olhos arrancados da face, o mito ancestral procura pela amada no sexto inferno, o da Treva e o do Horror, é o ciúme que o obriga a mais e mais escuridão, para que os olhos não vejam onde a luz pode que anule o gosto ruim na boca. Então o ciúme fica sendo mais que um vício.
Lembro Paulo Honório, em São Bernardo, de Graciliano Ramos, - pesadelar, o ciúme cutuca-lhe, agulhas finas, até debaixo das unhas, enquanto fora, rumor e desesperança, as folhas secas da mangueira tocadas pelo vento, o breu da noite imensa, a aguda certeza de que tudo deu numa errada. Será sempre uma errada chamar amor à possessão egóica, posto que vige nela, menos amor e mais perfídia, mais a fabulação e menos o chão do real, esta soberba soberania. Paulo Honório é um homem em frangalhos, fragmento de projeto humano, desossado.
De Shakespeare a Hilda Hilst, passando por Goethe (ah, o incalculável Werther!), Nelson Rodrigues e Dostoviévski, para ficar nos mais típicos, a literatura possui o registro de uma inesgotável reflexão sobre o tema. Arte antiga, nos dá que temos sido assim desde sempre. E isto pode que provoque um arrepio de pura volúpia naquele personagem de Tchekhov que, chegando bêbado, alta madrugada, costumava ecoar pela casa a palavra ciúme, repetidas vezes, só pelo gosto de ouvi-la em retorno a aferroar-lhe os sentidos. Homem bronco e desesperado, Ilya Ivanovich, chorando em babas, costumava também bater com a cabeça contra as paredes.
E se assim, nas letras ou no teatro, no cinema ou nas artes plásticas (há sombrias representações do ciúme, por exemplo, no acervo da psiquiatra Nise da Silveira), não o é, em absoluto, para uma amiga rara que, por mestra, prefere o anonimato, e jamais me perdoaria colocar aqui o seu nome. Para esta minha amiga, aceitem, o ciúme é só um anjinho trêfego que, vez por outra, e súbito, mas cantábile, nos adeja entre o ombro e à volta da cabeça, a tortura agulha e brevíssima de uma brutal insegurança. Ai.
Não sei se as novas gerações são mais ou menos ciumentas, mas o que vejo nos teens que revoam por aí, aos bandos, pelos shoppings, a alegria colorida de suas vidas, nem sempre o ciúme é a regra. Confirmam-me pais de adolescentes, e comprova-me a experiência, que, provisoriamente ao largo do sentimento medonho, apenas conhecem dele, quem sabe?, o que tem do anjo trêfego que às vezes, só às vezes, pousa ao ombro de minha amiga anônima.
A minha afilhada, Julia Wambier, que vai fazer 17 anos, me confidencia - nunca teve ciúme de nenhum de seus namorados, mas logo adverte, os grandes olhos verdes, herança do pai, o nosso saudoso Manoel, voluntariosa e inteligente, que também nunca amou nenhum deles. Vislumbrasse neles o seu drama, para lembrar Roland Barthes, ciumeólogo de rara estirpe, teria a bela Júlia se tornado uma megera ensandecida, sequiosa e faminta de sua presa? Só o tempo diria. Só o tempo dirá.
Os doutores de Nanterre et alhures devem ter deitado muita falação sobre o ciúme, na necessária e sempre sedutora investigação de seus significados & significantes, mas o que vale mesmo é aquele verso de Agamenon Magalhães, poeta obscuro da arcádia mineira, presença frequente nos livros colegiais de outrora: E disse o Amor morto de ciúme ao Ciúme:/Se és Ciúme com que me agulhas o Amor/Deixa em mim só a agrura de amar sem ciúme.
No tempo do Agamenon Magalhães as coisas eram diferentes.





