Wilson Bueno
Wilson Bueno
Novos Koans
Koans, insisto explicar, à guiza de introdução, são estorietas com que a vertente zen do budismo procura transmitir o melhor de sua filosofia que, a rigor, nem filosofia é, senão um modo de dizer a amplitude da vida e a essência mesma do existir.
Quase sempre ao modo de perguntas e respostas, estes microcontos
não se pretendem religiosos, na mesma medida em que o budismo não é uma religião no sentido literal do termo, mas busca e intenção, procura, questionamento da matéria fina chamada vida.
E é utilizando os koans como instrumento, que o zen budismo procura atingir, pela via do saber mais incisivo, aquele que acende uma labareda no interior do mais imenso, para lembrar o orientalista antigo, o satori, a iluminação, o insight, o desvelamento.
Quem aí se habilita?
A voz do Buda
O mestre-cantor, velhíssimo, preparava o jovem discípulo para substituí-lo no mais que indispensável ofício de entoar os mantras matinais do mosteiro encravado a três mil metros de altitude numa montanha dos Himalaias.
- Estás vendo aquele pico nevado? É o célebre pico Ayú. Quero que sua voz chegue até lá, numa só emissão.
- Impossível, mestre - responde o discípulo, estupefato. Não possuo tal potência sonora e creio que nunca, em tempo algum, alguém tenha conseguido alcançá-la. Nem mesmo o Gautama seria capaz de semelhante proeza...
- Como ousas dizer isto, jovem incrédulo? - irrita-se o mestre-cantor.
- Porque sei que o Gautama foi humano e precário como todos nós, só chegando a Buda após ingentes esforços, mestre.
- E o mantra que ainda há pouco entoavas?
- O que tem o mantra? Era só um mantra...
- Vem da garganta do Buda. Uma garganta de há mais de dois mil anos atrás e incalculáveis quilômetros de distância...
E daquele dia em diante, nos aplicados exercícios ao pé da alta montanha, o discípulo aprendeu que sua emissão de voz poderia ir ainda mais longe, para além do pico Ayú, que, em tibetano, quer dizer, lonjura.
O peixe e a vida
- Mestre, por que os peixes não vivem fora da água?
- Porque fora da água morrem asfixiados, ora.
- Esta resposta me parece, mais que simples, simplória...
- Então ponha o peixe dentro dágua...
O aqui e o agora
Entre os monges nômades do Tibet, o zen budismo é uma prática constante: alheios ao ontem ou ao amanhã, ou mesmo ao hoje, esta fantasia com que intentamos qualificar o presente, só vivem o aqui e o agora.
Incomodado com tamanha radicalidade de existir, o monge recém-admitido decide desafiar o mestre, também arqueiro e haikaísta de supremos dotes:
- Mestre, se o aqui e o agora, só em enunciá-lo, já passou, como é que este aqui e agora já não é puro passado?
- Porque o aqui e agora ainda não chegou.
- Então, se não chegou ainda, é puro futuro, não é o aqui e agora, mestre...
- Quem disse que o futuro é o que há de vir?
- Mestre, e não é? Deste modo fica fácil: arrebentas com toda lógica... Está claro que o futuro é o que há de vir.
- Mas se não veio ainda, como sabê-lo?
- Mas há de vir! - o jovem monge se exalta.
- E de onde você sabe que o futuro há de vir? Não é desde a perspectiva do aqui e agora?
- Então o aqui e agora não existe - o monge conclui, dando súbito salto para desviar-se de uma serpente, perfeitamente enrolada, no meio do caminho.
- Tanto existe que ias pisar nele e vejo que já acabas de saltar sobre ele...





