Wilson Bueno
Depois de uma noite inteira sonhando ser uma borboleta, o pensador antigo se pergunta, com rara argúcia: O que verdadeiramente sou? Um homem que sonhou ser uma borboleta ou uma borboleta que acaba de sonhar que é um homem? O axioma é emblemático e frequentemente citado pelo escritor Jorge Luis Borges para ilustrar suas afiadas observações sobre o sonho.
Mais que os sonhos dos poetas e dos combatentes, das bruxas ou dos monges zen dos Himalaias, com uma sedução, claro, para além de todo discernimento, me interessam agudamente os sonhos dos loucos, dos clinicamente loucos, dos assassinos em série, dos matricidas e dos parricidas, personalidades nem sempre derruídas, como quer o vulgo e a psiquiatria mais chã.
E é isto que intenta provar o médico escocês Conan McCliff, num livrinho que me envia de presente o poeta uruguaio Roberto Echavarren, sabedor de meu interesse por essas diabruras, como se referia o Marquês de Sade às suas gozosissímas jornadas sexo adentro. No livrinho, sedutor até no título - El caso de la casa verde. Uno relato clinico., traduzido pela Mondrian (editora que publica livros em espanhol, em Nova Iorque), McCliff faz um delicioso exercício de ficção ao confrontar os sonhos de alguns serial killers com os delírios de suas supostas vigílias. Nos sonhos, o que vemos é normalidade e clareza, doçura e encantamento, enquanto nas vigílias, ah, nas vigílias, aí só mora o Coisa-Ruim, como o comprovam os fatos e a crônica policial. McCliff, zeloso, nos dá mais os sonhos...
Estariam sonhando na vigília os serial killers de McCliff e procedendo ao inverso enquanto dormem? Que serial killer sonha que é um serial killer? E se o move pacífico sonho burocrático, que burocrata é este que sonha que é um serial killer? Mais: por que a suposta vigília é insustentável enquanto matéria de real, o osso da realidade? E que deambulações são estas, capazes de fazer de frio homicida, pai de família honrado, incapaz de matar uma mosca, mesmo que em sonho?
A rigor, McCliff não responde, limitando-se a nos revelar uma amostragem, bem aguda, de relatos de sonhos gravados por ele, no Manicômio Judiciário de Angloss, próximo a Edimburgo, ali onde se encontram presos, em regime de segurança máxima, psicopatas da mais variada estirpe - desde aquele, supremo horror, que fritou a genitora na frigideira até aquele outro que retalhou, com requintes de perversidade, o bebê da vizinha. Hay que tener estômago para ouvir o depoimento do que fizeram, não dormindo, mas perfeitamente acordados.
Não precisa ir muito longe - o psicopata paulista que matava crianças, depois de fazer sexo com elas, na certeza de que iam imediatamente para o céu, dizia, com todas as letras, num especial de televisão exibido há não muito tempo, que sonhava, todos os dias, que era um office-boy. Aliás, o sonho dele era ser office-boy, achava chique. Que de contraste, senhores, com o delirante killer que, acordado, era capaz de beber o sangue de suas vítimas?
Sei que o assunto é complexo e tem na psicanálise, esta ciência ainda tão pouco compreendida, mais de cem anos após o início de sua prática e oficina, a explicação que me parece mais lúcida, e mais simples - sonha-se com aquilo que se deseja.
Mas então onde fica a operação desejante dos loucos de pedra quando em vigília? Ao sabor do ego e do acinte? Do obsessivo ofício, desejante, sim, mas de proteção do self permanentemente ameaçado e quase sempre dissoluto? Certo têm líquidas respostas, os especialistas, o que não é o caso deste vosso curioso escriba e nem a disposição do médico escocês que se limitou a gravar depoimentos, no livrinho com que Roberto Echavarren me privilegia desde sua temporada em Nova York.
Como este, só este, exemplar: sabem com que sonhava um homem, de 55 anos, e que tinha assassinado, a golpes de facão, toda a família, isto é, a mulher, três filhos, a sogra, e dois sobrinhos? Juro, não minto, está lá, na límpida tradução para o espanhol de Jacobo Serval, que passo ao português:
- Sonho há 30 anos que sou uma flor. Só não alcanço compreender que flor é esta, tão bela...
Precisa dizer mais, meus anjos?





