Ter o escritor e jornalista Fábio Campana como amigo é um destes privilégios raros da vida. Conheço Campana há mais de vinte anos e nesses anos todos, de forma direta ou indireta, ele sempre esteve presente - indicando, sugerindo, fazendo ver, desde o seu mirante de cortante lucidez, o que de sinistro na província ou o que de nobreza nos clássicos literários, só para ficar neste exemplo propositalmente dicotômico. E é das mãos deste amigo de todas as horas que me chega, na semana, um presente em vários sentidos precioso: a mais recente edição do dicionário Michaelis, que acaba de ser lançado pela Melhoramentos, numa tarefa que consumiu dez anos do ingente trabalho de uma equipe constituída por quase cinquenta especialistas em língua portuguesa.
Dicionarólogo de carteirinha, sabe Fábio Campana de meu amor aos dicionários ali onde o latinista antigo dizia encontrar, em estado larvar, todos os versos da língua - os já escritos e também, sem excessão, instigante paradoxo, todos os versos por criar nesta mesma língua. O latinista falava de poesia mas no fundo queria tanger o mistério insondável dos números infinitos, e a matemática possibilidade do eterno, mas esta já é outra história, ainda que não muito diferente da que nos levam a viajar os dicionários.
Nestes nossos dias internautas, os dicionários integrados aos computadores pessoais, falar do velho dicionário impresso pode parecer quase antiquado, não nos animasse o gosto pela dignidade dos papéis e o insubstituível tatear por sobre verbetes e páginas, feito quem ama, não sem pouca lascívia, a palavra como um ente vivo, com a acesa história de sua vida no mundo falante da Língua. Não que não os pratique, os dicionários embutidos na memória do computador, de fácil localização e fácil decifração dos verbetes, mas fica faltando o cheiro da tinta, o tempo sobre o papel, as mãos a despregarem as páginas, uma a uma, feito um menino às voltas com o seu (secreto) brinquedo .
Não foi diferente com o Michaelis (volume de quase três quilos e, pasmem!, exatas 2.259 páginas) que a generosidade de Fábio Campana me faz chegar ao estúdio de Vila Tingui e me salva a noite da pior melancolia pois não há como os dicionários para nos devolverem nós a nós mesmos, se o vício é este, o das palavras, obsedante condenação que nos põe entre sonetos e coplas, tankas e haicais mal dê no céu uma lua cheia. Às vezes nem é preciso tanto - basta que um verso de Shakespeare nos pegue de surpresa ou a fina tessitura de Jorge Luis Borges de novo vos aponte a ‘‘paciência’’ erótica do texto feito um gozo, e a noite estará salva de toda prosaica ‘‘sujeira’’ que insiste morar no real como um engodo. Poemas, ficções, serão sempre a via do sublime entre o que é e o que já aspira ser pura memória do que é, esta nem sempre crível astúcia com que a realidade tenta superar o jogo do sonho e da fantasia.
No Michaelis, que tenho aqui ao alcance das mãos, o volume fechado sobre a mesa, é como se todas as palavras, sem excessão, repousando em estado de dicionário, guardassem em seu sono de entes debruçados no silêncio, um segredo impossível de ser contado - o das estórias que hão de engendrar a paixão medida entre o substantivo mais suspicaz e o adjetivo mais ancho, o verbo mais trôpego e a preposição mais triz, entre o coletivo que se perdeu de sua menor unidade e o étimo velhíssimo de si, mas tão velhíssimo de si que já nem é mais a mesma palavra, só a sua sombra primeira; o que foi, da palavra, o seu ovo.
Lembro o insopitável padre Saraiva que empreendeu, sozinho, uma das mais fabulosas empresas lexicográficas de que temos notícia em língua portuguesa, palavra por palavra, verbete por verbete, no bico da pena-de-ganso, com o seu até hoje notável ‘‘Novíssimo Dicionário Latino-Português, Etimológico, Prosódico, Histórico, Geográfico, Mitológico, Biográfico’’, editado no Havre, em 1881, quando perguntado sobre a razão de chamar a si tamanha tarefa, e a resposta cândida, dada por ele num dos inúmeros escritos que introduzem ao velho Saraiva: ‘‘Porque sem ela, as palavras hão de se perder, inda as mais belas, ao tumulto de uma algaravia sem nexo’’.
A idéia de que sem um dicionário as palavras se percam não é menos poética do que aquela que, quase em oposição, animou os primeiros lexicógrafos da Língua - a de que pode um idioma existir sem dicionário mas jamais, em tempo algum, um dicionário existirá sem que seja o insubstituível instrumento a medir a temperatura da Língua, seus encantos e desvelos. Uma Língua sem dicionário é uma Língua sem a medida de seu próprio tamanho.
Fábio Campana, que sabe muito mais de dicionários do que estas toscas linhas tentaram dizer, não poderia ser mais oportuno no repetino presente desembarcado aqui no estúdio: o novo Michaelis privilegia, como de há muito não se faz mais, zoólatras esforçados, a exemplo deste vosso renitente escriba, e lista, em apêndice, acreditem, mais de uma centena de vozes de animais - da abelha que azoina à zebra que zurra...

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