Wilson Bueno
Atestam os primeiros navegadores lusos a aparição, a oeste da rota atlântica das Índias - em águas raramente visitadas por estes próprios navegadores, por temerárias - de um monstro em todos os sentidos extraordinário: o Agôalumem, monstro marinho e aéreo capaz de voar a consideráveis altitudes e retornar, intacto, ao fundo das águas, assim que se precipite a noite do grande mar.
Há registros do Agôalumem, conhecido por navegadores genoveses como Aqualudus, ou simplesmente como Aqua! (assim mesmo, de forma exclamada e interjetiva), também no diário de bordo de aterrados marinheiros espanhóis que deram de frente com ele ao se desgarrarem da flotilha em que viajavam, sobretudo ao fim do século XV, época marcada, a exemplo deste nosso final de milênio, pelo misticismo mais cru e pelo esoterismo mais desvairado.
A crer nas crônicas lusitanas, não há nem haverá como o Agôalumem, ao modo de um impossível lagarto transmutado em dragão, animal transparente e da cor da água, a exibir, triunfante, seja no fantástico vôo ou no mergulho ao fundo, o seu esplendor de água viva, o cegante celefone de sua líquida textura e dentro dele, no ventre do Agôalumem, feito um milagre proverbial e de grande generosidade, borbulhas e conchas, peixes e gerânios, hipocampos, imponentes arraias, o mistério de todo um mar de sargaços.
Agarrados ao leme de suas embarcações, infladas todas as velas, atados todos os nós, estremeciam, ainda segundo a crônica, mesmo os navegadores mais experientes, ao pressentir, quando à deriva, pela agitação dos céus, semelhante a gigantesca procela, a proximidade do monstro de formidáveis asas, vindo em retorno ao mar, nos incendiados crepúsculos ao largo de Açores ou Gibraltar.
Um espetáculo que o cartógrafo lusitano Agamenão de Cunha deixou para sempre grafado em toscos cadernos de desenho, hoje praticamente destruídos pelo tempo, um dos tesouros da Biblioteca Nacional de Lisboa, e entre aqueles documentos só acessíveis após espessa e quase intransponível barreira burocrática. Os que chegaram até eles, aos documentos, chegaram também à primeira anotação gráfica do Agôalumem, ali onde se vê o monstro com dois pares de asas, colossal feito um continente e com o mar inteirinho dentro dele.
E é igualmente ali, no coração da mais importante biblioteca portuguesa, uma das mais importantes bibliotecas do mundo, que se decifra um mistério que remonta à origem mesma do Agôalumem: a resposta à indagação, quase sempre irrespondível em toda a história das suas aparições, do motivo pelo qual nunca nenhuma embarcação tenha naufragado e nenhum marinheiro tenha morrido, apesar do que se supunha a brutal turbulência com que se movia o monstro de água e asas, em seus mergulhos e assunções.
Muito simples: tanto no adejar aos céus quanto nos seus retornos ao fundo do oceano, o Agôalumem, acreditem os céticos e os neófitos, os ateus e os tristes, os enterrados vivos pelo pesadume, não fazia nem som nem ruído nem alterava um cêntimo a superfície quieta das águas. Líquido e paina, pena e puro, mais um pouco flutuava, o Agôalumem, com sua delicadeza essencial, o mar no ventre feito nuvem e ele, quase invisível, diáfano, mistério gozoso, com a graça bailarina de um sonho que se precipitasse ao fundo ou se elevasse aos céus numa ascensão de névoa e vento.
O terror de tê-lo de frente é que maravilhados, e amolecidos, os marinheiros costumavam não experimentar de novo o grande mar, tocados de uma angústia que os alienistas da época diziam ser a vertigem de quem tivesse visto, em pleno dia, um monstro de água e melancolia.
Homens rudes, passavam a temer a mais inocente lagartixa, o que era suprema desonra muita vez punida com a morte.
Apurados e primorosos, os navegadores dantanho, antes da descoberta do novo mundo, capazes de exuberante fantasia, alimentados pelo mistério do insondável mar a oeste da rota atlântica das Índias, traficando estórias, cravo, incenso, panos preciosos, num ofício de desassombrada loucura.





