Wilson Bueno
- Te segura, Johnny.
Era sempre assim, com ele, nos nossos regressos do Baixo Leblon.
Bambo das pernas, os olhos de peixe morto, a voz engasgada, a falação incompleta e repetitiva - a baba pesada escorria do canto da boca, limpa com tremura, e mãos erradas.
- Te segura, Johnny.
O filho de gringos endinheirados desabava, mandracado, na meleca diária com que nos protegíamos da realidade espinhada de arestas, no cenário dos setentas mal-iniciados, ali onde meros sargentos cruzavam impertinentes a rua, o poder de vida e morte sobre a nossa existência exagerada nas roupas, nas drogas e no verbo frouxo dos perturbados.
- Te segura, Johnny.
A expressão acabou entrando para a gíria cifrada com que se fazia entender a confraria desencontrada das noites pagãs do Baixo Leblon, no (apócrifo) mirante da zonal sul do Rio - altar de nossa vida bandalha e sem rumo.
No regresso de Caetano Veloso, do exílio londrino, a polícia militar assentara uma praça de guerra para conter, prender ou arrebentar - conforme o caso e a sorte - a humanidade cabeluda, desgrenhada e colorida, nos embalos tupiniquins do make love not war, que entupia a frente do Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, centro carioca, onde se daria o grande show para marcar o retorno dos baianos.
Mixos de grana, renitentes desempregados, subvivendo do artesanato que levávamos às praças, íamos a todos os acontecimentos importantes da cidade, muitas vezes só com o dinheiro do ônibus. A idéia de descolar ingresso fácil ia com a gente.
A volta apoteótica de Caetano nos baratinava. Escandalosos, cada um a seu jeito e modo, juntamo-nos também à fissura e fúria de mais de uma centena dos de nossa tribo, sem acesso às portas semicerradas do velho teatro, por onde entravam retardatários certamente ilustres e importantes, exibindo ostensivamente convites ou entradas.
Os pesos pesados da segurança não faziam ouvidos à insistência com que os mais obsessivos tentavam penetrar no que lhes parecia a catedral onde se oficiava uma cerimônia mágica. Embora o torpor zonzo, pressentíamos naquele momento uma importância.
Ao menor descuido com a porta, o show já iniciando nos primeiros acordes de London, London, a gaitinha sofrida, nostálgica e peregrina, introduzindo à música, a multidão comprimida desembestou. Obstáculos internos, como a proteção de vidro, de acesso à platéia, quebraram-se num sururu contido com presteza.
Teatro literalmente tomado, esparramados pelo chão, não deixávamos de notar que os dos bancos estofados ou dos camarotes eram os mesmos médios senhores que, alguns anos antes, com certeza não fariam semelhante alarido e nem expressariam o entusiasmo desconcertante que ora exibiam para aplaudir o alienado baiano, de batom vermelho, jeitos e trejeitos, caras e bocas, na então escandalizante performance da imitação de Carmem Miranda.
Estrugiam num delírio de aprovação, esquecidos da vaia dura e humilhante endereçada ao mesmo Caetano, agora incensado pelo exílio, no famigerado episódio de um ambiente de festival, em É Proibido Proibir. Mas proibiram-lhe - de forma mesquinha, provinciana e reacionária. Mais que os milicos temidos, proibiram-lhe os médios e os revolucionários. Ô hipocrisia sem nome.
Aquilo tudo nos municiava o orgulho fraco e nos fazia vaidosos, quase pedantes, frente aos bem-comportados que haviam perdido o bonde, o trem, os trilhos. Purgávamo-nos, assim, das nossas exagerações.
- Te segura, Johnny.
Babávamos nas mesas de bar. Os andrajos furtacores vestiam o corpo sempre magro, chupado nos ossos da cara, comido pela baratinália em que se convertera a nossa mocidade interditada.
A notícia veio do Pinel: Johnny seria transferido para uma clínica na Suíça - arranjos do pai, diplomata, e horrorizado com o filho perdido para as drogas.
Bem ele, o mais heróico, e que tinha uma obsessão: morrer a 300 horários, numa 900 cilindradas, na Avenida Niemeyer. Gabava-se de sua futura morte espetaculosa e reprovava, sorriso superior, a nossa frágil certeza na promessa.
Mal das pernas, ainda assim não erramos - Johnny rodou pela Europa e, muitos anos mais tarde, enviava um postal de Hamburgo, onde se casara e prosperava nuns negócios de exportação.
A esposa, radiante gordinha, justificava - era uma mãe.





