Wilson Bueno
Os índios do Chaco paraguaio acreditam que o tiguasú - monstro repugnante com um nariz todo úmido e em carne viva - protege os humanos contra a morte.
Isto só acontece, contudo, se o postulante aos seus obséquios, ao menos uma vez na vida tenha untado, dos tiguasús, o repulsivo naso, com o pohã, uma espécie de unguento obtido das folhas maceradas da tapiá selvagem.
Segundo estes índios cândidos, aferrados ao guarani, sua língua, com uma teimosia dura e inegociável, os tiguasús costumam aparecer nos pueblos perdidos do interior paraguaio, sempre no começo da primavera dos anos ímpares, um fenômeno que os mbás deram o longuíssimo nome de yecuaacuaaã.
Quase à mesma hora da madrugada, quando o ardente perfume do jasmim-do-brejo tonteia, saem de suas tocas os tiguasús tardios, arrastando-se pelas ruas, cambaios, lacrimejantes - o nariz em carne viva, olhando, terríveis, contra o céu.
A capa preta, o chapéu enterrado na testa, os tiguasús são esquivos e muito tímidos, metade homens, metade espectros, a mão em concha protegendo da luz o grande nariz desde sempre em carne viva.
Apesar do temor e da dúvida, são muitos os que se candidatam a untar-lhes o naso com as folhas maceradas da tapiá selvagem.
Não que não morram mais depois deste delicado feito, mas da morte não terão notícia ao menos por dois anos, até nova primavera e novo yecuaacuaaã, com os tiguasús cortando a madrugada em dois, a conduzirem, pelos vilarejos desertos, os espetaculosos narizes.





