Wilson Bueno
Não há como a paixão amorosa para pôr os humanos a nocaute. Otávio Augusto, meu afilhado, ainda não completou 17 anos mas já é um ser convulsionado pelo tumulto de uma paixão avassaladora - deixou de lado patins e skates, a roda dos brothers da esquina e vive pelos cantos, turvo, macambúzio, ora por simplesmente embalar o sentimento amoroso, ora por viver as turbações da ausência e da agrura, a falta que ama feito uma faca cravada no coração.
O corvo sentimental, empoleirado ao ombro, me diz que sempre foi assim e assim sempre será - retratos, sonetos, juras damor, perjúrios, as páginas dos diários desesperados, a paixão feito uma enfermidade que se carrega dentro - secreta ou pública - mal de raiz, e já vos passeia o demônio da acerba ternura igual que um escândalo íntimo nem sempre contido nos estreitos limites da prudência ou da sobriedade.
Carentes e alheados, os amantes pedem, no fundo, uma delicadeza que a vida nem sempre pode oferecer. Para o poeta Gerard de Nerval, oficiante de ritos sombrios, só há um morrer legítimo, o mourir damour . Transfuso a outro ser, só esta morte me faz digno do único nada possível e que não me desonra: o nada de somar-se ao objeto amado e nele desaparecer. Roland Barthes chamava de desaparecência a este pulverizar-se naquilo que se ama.
No soneto emblemático do mestre brasileiro, o verso insuperável: Os amantes se amam cruelmente/ e com se amarem tanto não se vêem. É isto que flagro em Otávio Augusto, um adolescente, tanto quanto o decifro em todas as doces (?) histórias de amor que me enchem a solidão do quarto suburbano se é noite e amantes tecem e tramam no papel um conluio aflito de perdas e danos.
Mais que vida é morte quem os rege a estes amantes da tradição literária - de Adão e Eva ao par romântico do último Titanic - sombras e desesperanças, gritos e lágrimas, sobra pouco ou quase nada para as águas serenas do melhor convívio. A isto o grego imemorial chamou de o daimon do encanto. Ainda que torturados há encanto e lascívia, luxúria e feitiço nesta tortura inventada. Dramaturgos do melhor quilate, os amantes se conferem a autoria de textos pânicos onde há, já perceberam?, pouco espaço para o riso e a graça, a alegria baldia por exemplo que é o sumo da melhor amizade. Todo amor que aspira ao status de paixão já se quer tormento. E será o gozo deste atrapalho, a contradição - lúcida? - que o move.
As oscilações de humor de Otávio Augusto apenas reprisam o movimento de ambígua motilidade que é o Desejo andando a casa e os cantos, o seu confuso quarto de adolescente, ansiando pela namorada, na mesma medida em que a reinventa a cada hora, para perdê-la no minuto seguinte e de novo, na ausência dela renovada, erguê-la dos escombros de sua própria desesperança. Não haverá salvação para este rito condenatório? Mais que provado está, pela melhor reflexão filosófica, que a paixão não aspira à reprodução da espécie, o que a justificaria como inevitável. Não, a paixão é bem mais que sexo genitalizado em busca da procriação imediata. Difusa e impalpável, concreta só no que tem de mais sofrido, a paixão é quase um vício impresso ao código genético da espécie.
Pergunta, dias e dias andando o deserto, o muezim de As Mil e Uma Noites: por que a pérola da vida, que lhe exige o Gênio em troca do mais sedutor de todos os cânticos por Alá, se encontra ao colo da - impossível - mulher amada? Estivesse no inferno e lá iria o muezim buscá-la, sem medo; ainda que estivesse sob o sarcófago de Quéops, vigiado por serpentes e escorpiões, lá iria buscá-la, à pérola da vida, o muezim desejoso do cântico como uma flor de ouro na garganta. Mas não há como fugir.
Otávio Augusto, o meu afilhado, palrante e falastrão, também não quer conversa, nenhuma espécie de conversa. Só o seu silêncio dele, para referir as inquietantes torções do lírico Camões, poeta da paixão, só o seu silêncio dele, o aquieta, aninhado à febre de amar, amando continuamente o que nele é falta, fenda e obscura falha.





