Wilson Bueno
Koans, necessário repetir?, são mini-parábolas, racontos, micro-estórias zen, isto não os animasse o brincante intento de não serem nada e nem significarem nada além de instrumentos, utilizados por mestres e discípulos, com vistas a atingir o satori, a chamada iluminação búdica.
Animado pelo severo exercício da busca espiritual, este atalho para o insight, o mais prodigioso, constitui, quase sempre, legítimo artefato poético - umas vezes cândido, outras dramático como um soneto de amor shakespeareano, e outras tantas, carente de um sentido, puro no sense, e aí, melhor que tudo, o espelho e o rosto mesmos da poesia.
Praticados pela vertente zen, sobretudo a dos monges nômades dos Himalaias, indispensável registrar, os koans desafiam todos os pré-conceitos com que se ilude a nossa vã filosofia.
E por último, mas nem menos importante, não é porque, muitas vezes, lhes falte um sentido, que, eles, os koans, restem sem sentido algum. O sem-sentido do koan pode que seja o tenso sentido plural com que retezamos ao limite o arco-da-esperança.
Quem se candidata?
Vida mais vida
Dia e noite o discípulo se perguntava por que os seres humanos morriam. O Altíssimo não teria errado ao prescrever a morte para as Suas criaturas? Como era possível morrer? Que coisa mais de mau gosto a tal da morte que tornava em mineral o que antes era o feérico brilho de uma vida...
Sabendo da passagem, pelo mosteiro, de um mestre versado em imortalidade e que segundo alguns iogues estava viajando há mais de cem anos por toda a China, o jovem monge apressou-se em ter com ele.
- Mestre, sei que muito vivestes e ainda muito viverás, mas nem por isto alcançastes, claro, anular a morte. Responda-me, mestre, vós que sois sábio, por que a morte?
- A morte não existe, meu filho.
- Como assim?
- A morte não existe pelo simples falto de que a vida, para mim, não tem fim.
- Mas todos morreremos, mestre - eu, vós, todos... Esta é a maior certeza.
- Por mais certezas que eu tenha de que morro, uma vez morto, como saberei de minha morte? E se nunca, em hipótese alguma, poderei saber dela, é legítimo dizer que ela, a minha morte, existe?
E nunca mais o inquieto discípulo morreu, tratando de viver a sua vida com a graça inocente de um velho pinheiro que, não sabendo de si, é por isso mesmo, ainda mais imortal.
In-sensato amor
- Mestre, o que é o amor? - pergunta o discípulo, cheio de afeto e respeito pelo velho monge, como quem espera um afago.
- O amor? - o mestre pespega-lhe no rosto, as magras mãos abertas, um sonoro tapa.
Humilhado, a face ardendo, o discípulo vocifera entredentes:
- Mestre, eu vos odeio!
- O contrário disto, devotado monge, é que é o amor.
A arte de rir
Não existiu em toda a Índia alguém mais galhofeiro que Nasrudin, mestre-jardineiro do Mosteiro de Varpinanchur, na província do Brahmaputra. Incomodado com suas muitas vezes crassas pilhérias, Jasnú, monge aprendiz de jardins, foi reclamar com o superior do mosteiro, um monge atravessado em anos e que, por força dos repetidos jejuns, estava muito debilitado e já contavam-se dele os dias.
- Mestre, não dá mais. Nasrudin faz piadas comigo o dia inteiro. Não me respeita e me aborrece o tempo todo. Não consigo nem aprender as artes da jardinagem...
Num fio de voz, o superior do mosteiro sussurrou:
- Por que... você... não mata... Nas...ru...din?...
- Matar?
- É... matar... Nas...ru...din...
- Que piada, mestre!? Que piada!?...
E levantando os braços, de pura fraqueza estendidos ao longo do corpo, o superior conseguiu chegar as duas mãos à boca, mas isto foi insuficiente para esconder a gargalhada que, embora débil, sacudiu todo o corpo do velho monge antes que desse o último suspiro.





