Wilson Bueno
Sei o que guarda o envelope deixado com um amigo: novas artesanias da poeta Jussara Salazar. Livros que ela mesma fabrica, no computador, em sofisticados papéis e com a magia súbita, por exemplo, do retrato de uma longínqua bisavó, no frontispício - notícia de antes, de muito antes, desde esse tempo interior que nem se conta e que de tão antigo já passeia as barrancas do eterno. Bonito brincar de nuvem se é manhã e a sala esplende o ouro de seus sóis. Mas atenção: um livro de Jussara Salazar não é bem um objeto na vitrine.
Tenho-os todos, ou quase todos, privilégio concedido a poucos, pois os livros da poeta Jussara Salazar contam-se nos dedos das mãos: cinco ou dez exemplares de Marca DÁgua, de branca capa vergê com as sedas de seu miolo; uns 15 (?) Planctum bordado de iluminuras; a caligrafia miró-cantante de Sol, belo lunar da noite, será que dez?; os gostos e os gozos do pequenino Vinte pra se levar no bolso interno do paletó e dali sacá-lo, baby, - nos momentos de pânico - rápido como quem puxa um revólver. Um livro de Jussara Salazar instaura o milagre do possível na madrugada do arrabalde profundo.
Não há outra linguagem que os toque, aos livros da poeta Jussara Salazar - afiada pernambucana, também artista plástica reconhecida nacionalmente, e que vive e vige entre nós, os curitibanos, há algum tempo - senão a linguagem mesma da poesia - esta com a qual a todo momento esbarramos, na graça oblíqua e tanta vez bailarina de perguntar ao dia o que de sublime no mais prosaico e o que de luz na sombra mais imensa. Um livro de Jussara Salazar pede ao Buda, humilde, uma chance.
E se falei de artesanias gráficas, de uma delicadeza íntima que a integra ao estreito círculo dos tipógrafos-inventores, não vos falei, até aqui, do principal, e nem vos disse da poesia que intensa move da poeta Jussara Salazar os dedos músicos dos pés e das mãos. O poema, brocado debrun, se enlaça ao papel feito a hera no muro que daqui se vê e vos circunavegam as brasas da melhor literatura. Não, não falo de uma poesia qualquer, falo de síncopes e alaridos, murmúrios e aconchegos, remotos burburinhos, o som quem sabe do roseano corguinho faiscado pela luz da manhã. Assim, a esmo: Floraquática beira/a riscolinear/já estrela/alfa o sol arde/em cen-/telha,/e meteoro oolho/alvorece água de lunar.
Exíguo exemplo, este poema aí, de um talento que surge para o nem sempre condescendente sanatório das letras tupiniquins, com a marca amadurecida de uma concepção prévia, e cuidadosa, do que seja o fazer poético, esta dureza, ao contrário do poetar lítero-canório que é vetusta norma entre poetas novos e velhos novos de Porto Alegre a Manaus. Um livro da poeta Jussara Salazar vem ao mundo para dizer o contrário.
No envelope entregue ao amigo comum, nada menos, a meu ver, do que o melhor de Jussara, até aqui: as radicalidades de inscritos da casa de alice. Com a notícia de que serão editados, através da lei municipal de incentivos fiscais, pela Gráfica Fundo de Ouro Preto, de outro poeta, de gatimanhas & felinuras, o muito nosso Guilherme Mansur. Matéria-de-poema na tipografia ouropretense, já antevejo a estes poemas-périplos, poemas-palavras, poemas com o tempo dentro feito o fruto e o caroço, andando o Brasil, na fabulosa marca de 500 exemplares, o que para um livro da poeta Jussara Salazar é mais que um best seller.
Dividido em dois momentos, com os inscritos propriamente ditos e o sumo de Púrpura a Chuva, o livro deverá estar pronto até meados do próximo semestre, e desde já vos garanto, será um livro de Jussara Salazar com o sol dentro.
Aqui, tudo é mágico e aspira à palavra mais pura: de O retorno do antes que abre inscritos da casa de alice, ao Da poesia que o encerra, passando, entre outros, por interflúvios, o retorno da noite, a árvore à direita, os anões, o jardim, os ventos da manhã, os legumes da casa, tudo conspira para que os espelhos do país de Alice pervertam as palavras, na busca senão de um novo sentido, de alguma coisa que as tornem, as palavras, mais fundas.
Que nem este Dia de dança: Signo escrito (órgão) criva/ o verbo insuflando os pássaros/ em nascentes qual geometria/ marca o mapa um incunábulo/ que estrelar de um ouro outro/ a margem de um adágio:/ a hora do exato em flecha acerta/ dígito o alvo em um curvo quase.
Um livro da poeta Jussara Salazar é bem mais que uma porção de versos retirados do fundo de uma velha gaveta.





