Wilson Bueno
Os dias lindos
Não há, senhores, como os outonos azuis de Curitiba.
A cada vez que o outono põe vermelhas e exuberantes as flores do espírito-santo desabando pelas cercas do arrabalde, e de um azul escandalizado se faz o céu de nossa cidade, eu me lembro de uma crônica antológica de Cecília Meireles - ‘‘Os dias lindos’’, publicada acho que no Diário de Notícias, e reunida posteriormente num belo livro.
No texto, a poeta exímia de ‘‘Solombra’’ e também de ‘‘O Romanceiro da Inconfidência’’, execrada, um tempo, pelas vanguardas, no que de mais policialesco as vanguardas possuem, exortava o leitor a não desperdiçar em lamúrias os dias lindos. Aí estão e nos foram dados, os dias lindos, como um triunfo de existir, o privilégio dourado da vida.
Sejamos líricos, pornograficamente líricos, que a vida só vale o gosto destes dias assim, de outono baldio e peregrino, andando a tarde comovida. É isto que, no texto exemplar, Cecília Meireles pede ao deus da manhã - a garantia de que o dia lindo não lhe escape por entre os dedos - turvos - das mãos. Há o sol, o azul mais ancho do céu que nos aconteceu, mas de ordinário inexiste em nós a mesma graça e a mesma disposição bailarina que aspira apenas à leveza da manhã feito uma ária de Puccini cantada pela voz em ave de Maria Lúcia Godoy.
Da janela do estúdio avisto o pinheiro que de tão altivo é quase uma arrogância plantada na tarde, o mesmo pinheiro de desde antes do Gênese, gasto símbolo de nossa terra, cantado em verso, quadra e redondilha, e quantas vezes massacrado por sonetaços de pé quebrado. De ‘‘taça ardente’’ a ‘‘triunfo das araucárias’’, não importa, o que quis o poeta antigo foi expressar o enlevo que os dias lindos guardam, delicados, no coração.
Erramos de estética? Não importa, erremos de estética e de rumo, posto que a vida não tem fim, no sentido maior - e de resto único posto que real - de que a vida não comporta finalismos. ‘‘Atingir objetivos’’, ‘‘chegar lᒒ, ‘‘alcançar vitórias’’ - palavras que o vento come, e se vento bom, como diz o poeta pantaneiro, logo vomita as ‘‘tronchas palavras’’ na terceira curva do rio.
Quem foi aí, tão triste, que pôs a vida para correr?
A frase, início de um famoso conto infantil, daqueles burlescos e funâmbulos capazes de transformar sapo em príncipe, expressa, e bem, a profissão de fé que, o mais das vezes, fazemos da vida, não como vida ‘‘em si’’ a existir aonde lhe leve o vento, o que seria da vida a sua real ‘‘finalidade’’, esta mesma de não ter finalidade alguma, mas desviando a aventura de viver para o rio caudoloso de nossas vaidades-fins, de nossas vaidades-objetivos, de nossas vaidades-alvos.
Cecília Meireles, poeta de minúcias e delícias, foi capaz de entrever num simples dia - dia velho de há mais de quarenta anos atrás - o que de sol e passarinho, o que de azul no céu e o que de ruído e vozes e falas e burburinho de família antiga, assim feito um remoto domingo que o mistério do tempo para sempre tragou.
Sem descuidar, a poeta, de pedir ao deus da vida, face os dias lindos, o gosto bom de sorvê-los, e o de olhá-los, com calma.

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