Wilson Bueno
Kafka, que era um homem delicado, sabia atentar para as pequenas grandes insignificâncias que povoam este nosso mundo insensato. De um quase-nada, erigia mundos - um cisco na cadeira de Gertrud, a minúscula folha tocada pelo vento numa rua de Praga, um dó-sustenido modulado pela voz da ratazana Josefina, a Cantora.
Admiro nestes poetas do mínimo, a doçura, sobretudo a doçura com que, generosos, concedem, ao mais pequeno, uma grandeza tácita e comovida.
Monitorando a trajetória de simples fiozinho de lã despregado de uma blusa (ou teria sido de um novelo?), seu trânsito e comédia, seus sustos e entraves, noites e noites imóvel num canto da casa e, logo depois, a vassoura que o desloca para novas e sucessivas aventuras, entre obstáculos e luminescências, paradas e ainda novos fluxos, Franz Kafka alcança, mais pela humildade do que pelo seu não pouco gênio, construir uma página acaso imortal.
Igor Copland, o jovem e endiabrado videomaker canadense, capaz de flagrar a dança de uma cepa de vírus numa bolha de sangue, arrancando ao eminentemente diminuto a exata escala de sua grandeza, tem um pensamento sublime sobre a matéria.
Para Copland, o absurdamente grande é tão invisível quanto as moléculas que filma através de potentes equipamentos óticos. Assim como o mínimo, do gigante só enxergamos o dedo mindinho, costuma destacar. E, num de seus inúmeros textos, quase sempre publicados na Video Today, de Toronto, faz uma comparação definitiva para exemplificar a invisibilidade do muito grande: o astronauta do futuro que tentasse, com uma filmadora de mão, gravar a imagem da superfície total de Júpiter. Intento, de resto, falho desde sempre, seja com Júpiter ou com Saturno - ele próprio acrescenta, o inquieto videomaker de Ottawa.
Ainda que reconhecendo méritos em Copland, prefiro, dos exageros do mínimo, não o que, microscópico, coloca-se em outro plano e nos foge à vista, mas o menor mesmo, este que entregue aos nossos olhos desprevenidos, se põe de pé, se afirma e por vezes grita, vitupera, esperneia, e exige uma existência, nem que seja a miúda existência do mais menor de grande.
Para lembrar as crianças, os loucos e os ágrafos que, desconhecendo a gramática, acabam por chegar mais perto da linguagem.
Zôo Tupiniquim





