Wilson Bueno
Viveu há muitos anos atrás, encerrado no coração da montanha, o mais peripatético dos monges tibetanos. Aristotélico e muito curvo, magro de uma magreza de estaca, não parava nunca, andando de um a outro extremo os jardins do enorme mosteiro, murmurando mantras e fórmulas, sistemas e estruturas, álgebras e logaritmos, além dos gozos verbais que, conta a lenda, lhesaíam da boca feito uma miríade de estrelas.
Esclareça-se que os monges peripatéticos (aqueles que ensinam andando) são muito raros, mesmo entre os zen-budistas mais avançados dos Himalaias. E o nosso, outra excentricidade, recusava-se a adotar um nome, o que obrigava a todos chamá-lo de Oi, mesmo quando se referiam a ele na terceira pessoa.
Assim, Oi, o monge peripatético, recebia discípulos de quase toda a Ásia búdica, ou mesmo de fora dela. As jornadas propostas pelo extravagante e vigoroso mestre, aos novatos recém-chegados ao mosteiro, eram quase absurdas, variando de um mínimo de 48 horas ininterruptas andando e aprendendo, aprendendo e andando, sem intervalo sequer para a alimentação ou o sono, até jornadas de 72 horas, com intervalos para três horas de sono entre um dia e outro, e uma tigela de arroz no desjejum matinal.
Poucos eram os que se habilitavam e mesmo os que tentavam ultrapassar seus próprios limites não raro eram vencidos pelo cansaço logo nas primeiras horas dos árduos exercícios reflexivos, com frequência iniciados pelos complexos paradoxos platônicos convertidos em álgebras e equações perfeitas.
Isto até o dia em que apareceu no mosteiro o mais velho candidato a tomar lições com o Monge Oi. Velho é uma maneira delicada para qualificar o macróbio monge mais que centenário, e que de tão passado em anos, sugeria uma paina levada pelo vento, sobretudo por causa dos longos cabelos e barba, brancos ambos como a neve que, eterna, nunca deixou os flancos da montanha, e também porque, magro e de ossos delicados, podia, quem sabe, detalha a lenda, ser quebrado pela brisa que, na manhã dos Himalaias, é tão intensa e insistente que, muita vez, parte em dois jarras e xícaras de porcelana da China.
Oi olhou-o de cima a baixo, como quem teme um iminente colapso e foi logo inquirindo o candidato às suas lições de Lógica e Matemática, Filosofia Pura e Aritmética Aplicada:
- Mesmo que você vencesse a fragilidade física, não sei como aproveitaria os ensinamentos que eu lhe passaria e as reflexões que eu pudesse lhe propor, caro confrade. Penso não existir mais tempo hábil para a mais que saudável e necessária prática do que ensino...
- Não vim aqui para saber da pouca vida que me resta mas para, mais que aprender, encontrar contigo, quem sabe, um sentido, que me escapa, para tudo o que já passou.. - retrucou, arfante, o monge velhíssimo.
- O saber humano acumulado e realimentado a cada vez, por cada um, pode lhe explicar facilmente o sentido e até mesmo o não-sentido do Tempo, este ainda galhofeiro mistério...Mas como poderei lhe ensinar a ciência peripatética que é uma pedagogia andando, um ensino que tem o movimento tanto na forma quanto no conteúdo o que, temo, o confrade não conseguiria dada a avançada idade?
- Veja, aquela árvore que quase some no horizonte... Não precisa de si para movimentar-se em nossas retinas... E, contudo, se movimenta - a cada nuvem que por ela passa, a cada demorada e curiosa observação dos monges daqui, a faz andar feito anda o céu azul de Matsuchima... - súbito convocou o velho a que o Monge Oi pensasse no improvável.
- Afinal, você veio aqui para aprender ou para ensinar? - interpelou o soberbo Oi que, embora sem nome, tinha o centrado ego dos que se julgam os donos do saber terreno.
- Nem uma coisa nem outra, amigo - arfou, de novo, o velho. -Já lhe disse, vim aqui para ver o que a Razão me aponta de sentido para este já tão longo andar...
- Sou capaz de medir este caminho aqui do mosteiro usando somente o contato da sola dos meus pés contra o chão e posso lhe assegurar, monge, que não andamos nem duzentos metros durante este diálogo, e já o percebo muito mal...
Foi então que, sentando-se ao solo, na posição iogue da flor de lótus, o velho sábio parece ter dado os trâmites por findos, e antes que morresse foi amparado pelo Monge Oi que não conteve o comentário acerbo:
- Não lhe disse, confrade?.. Nem duzentos metros.... Nem duzentos metros...
Mas Oi ainda pôde ouvir, feito um látego, as últimas palavras do monge centenário:
- Duzentos...? Não, ignorante Oi, não: em cento e dez anos, foram, contados pelas batidas deste coração que desfacele, cinco vezes o que andou, até aqui, toda a tua existência peripatética...
Só então o Monge Oi percebeu que não havia completado nem trinta e sete anos naquele Ano Novo Lunar regido por Saturno e sob o signo da Serpente.





