Wilson Bueno
Andamos às tontas pela noite preta - eu, Bené, Sergéte. Sonhamos um sonho em Marrakesh, o sininho no pescoço me anuncia de longe, os casacos de Bené quem os fia e tece é a avó, viúva de Benedito Lacerda Neto, o compositor de Jardineira, parceiro de Pixinguinha, flautista indomável. Sergéte há de sempre sentir frio, enfiado numa regata mínima, magro e alto, a sugerir uma corça exausta, recém-chegado das refavelas que começam a povoar a periferia do Rio, naquele início dos anos setenta no Brasil. Ordens, mandatos, generais, tiros no escuro - temos apenas vinte anos e estamos diante da tarefa inominável que é a de suportar o país, escorraçados pela polícia das boates, cuspidos dos restaurantes finos por garçons brutamontes. Ah, baby, não queira saber que de horror e medo, que de asneira e volúpia. O meu amor por você dança e teme a lua de agosto.
Há quem nos diga os três mosqueteiros - Sérgete, Bené e este então vosso infante escriba.
Acontece que os três temos, cada um, uma namorada. Ah, Pétão, com seus rijos seios de moça. Ah, Linda, com sua ametista no umbigo. Ah, Magra Jane, com suas clavículas nuas pontilhadas de sardas. Vamos, assim, aos casais, os sexos quase indefinidos, e ambíguos vamos, as nossas misturadas jubas, nossas estórias-de-efeito, nossos batons baratos, nossos brincos de araminho, broches de durepox, vamos uns nos braços do outro, subindo e descendo ladeiras, no coração do Brasil.
Aqui, ali, além, prisões, torturas, desaparecimentos, o chute nos testículos não deixa Pedro mentir; Pedro, codinome Arnaldo, ex-seminarista, como quase todos, evangélico e pastor, a barbicha negra e os oclinhos trotskistas, a mão no coldre, man, uma rajada de balas, man, ianques go home, aqui só brincamos de vietcongue.
O que têm os bares do Leblon que só nos fazem fingir? Pétão largou a faculdade, sociologia, sem trancar matrícula e nem atinar para este pequeno grande desacerto na vida; Linda formou-se, imaginem, normalista, e vive de pequenos expedientes, a maioria ilegais; Magra Jane é atriz e não abre, trabalhou no Hair e aguenta, todas as noites, no Teatro Ipanema, a figuração inexpressiva numa peça liderada por Rubens Correia ali onde com a voz pequena, a dicção marcada, ele já era o maior ator do Brasil. Magra Jane figura, só figura, todas as noites: ossuda e grande, impávida num canto do palco parece uma estaca.
Depois da meia-noite, nos encontramos todos, no Rio Jerez, o bar da moda, no Posto 6, em Copacabana. Ali atores, travecas, produtores, artistas do dancing, drogaditos e rufiões, michês e prostitutas se reúnem para um quem sabe extra, um copo de cerveja, uma conversa à toa, um luxo, uma transa, um beise, um beijo, uma lua desembarcada, no papel colorido, direto de Amsterdam. E ali, entre outros, impera Carlos Imperial, compositor medíocre, homem da noite, empresário, assim meio mafioso e bexiguento, exímio e enganador.
Corre por entre as mesas que Imperial planeja um show só de transformistas, em algum espaço da moda, na Zona Sul, coisa inabitual aquele tempo, com os espetáculos de travestis restringindo-se aos cabarés da Lapa, danadamente transgressivos, rigorosamente marginais. Não era surpresa a polícia invadir o cabaré e levar os artistas e toda a platéia para o distrito mais próximo.
Não deu outra: Pétão, Linda e Magra Jane rápido deram um jeito de chegar ao secretário de Imperial, Larissa, bichinha bêbada e meio sonsa, vesga de um olho e seca feito um caniço. Conduzidas, as três, por Lane Dale, o bailarino, foram apresentadas a Larissa como travestis franceses, operadas no Marrocos. A palavra de Lane, astro internacional, era lei.
Larissa não cabia em si, agitada e muito bêbada, insistindo em ver o sexo estirpado de Pétão, Linda e Magra Jane, o que acabou acontecendo no banheiro apertado do bar. Importante notar que aquele tempo essas coisas eram coisas espantosas e não a rotina blasé de nossos dias globais.
Sem dinheiro para continuar o porre que, aquela noite, prometia, chorosos e mandrakões esperamos as nossas namoradas que nos haviam jurado arrancar de Larissa, o preposto, senão um adiantamento, ao menos o pagamento da farra do dia. Para quem vivia só de hojes e agoras, aquilo já era muito e bastante.
Não foi bem o que aconteceu: mas até hoje, os tiras da Décima Terceira, a delegacia em frente à Galeria Alaska, procuram por três travestis franceses que fugiram sem pagar a conta de enorme mesa onde sentaram-se de vinte a trinta pingentes da madrugada. A fome não nos roeu o estômago aquela noite carioca.
Pelas esquinas de Ipanema brinca um vento capaz de contar à tarde vadia o que foi, lá longe, amor e ócio, vida e espetáculo, grito e destino. O mar, o mar azul contra as pedras do Arpoador.





