Wilson Bueno

Histórias de Carnaval

Douglas MayerA cafetina Luiza Toldo realizou o primeiro baile gay no Rio, em 1932Houve um tempo, na vida do croniqueiro, que pesquisar o carnaval carioca, mais que curiosidade, foi rito profissional: tentei organizar, juntamente com mais dois companheiros, sem sucesso, em 1971, para a Editora Folhetim, uma antologia com o melhor das histórias e estórias deste que é um dos mais intrigantes fenômenos populares da Terra -o nosso carnaval.
Com algumas coletas escabrosas, e outras nem tanto, as primeiras falaram mais alto à consciência culposa de nossos editores baixo horror Médici, que, autocensurados, temeram o empreendimento. E o projeto morreu na casca.
Não sei mais onde andem os originais do trabalho que acabou sem título, e quase sem memória, a não ser estas aqui, que recolho a esmo, puxando lembrança, consultando velhos papéis, e, quem sabe?, reinventando delas a graça de que um dia foram capazes.
A palo seco
São inúmeras as histórias em torno do lendário Carlos Cachaça, 95 anos, único fundador vivo da Mangueira.
Nunca se sabe, nestes casos, onde começa a lenda nem onde termina a verdade, mas corre o mundo do samba carioca, uma certeza - houve um carnaval em que Cachaça não tomou um só gole de álcool.
Quem conta isso - e dá os detalhes - é Alcides Nogueira, num livro já esgotado, lançado há muitos anos pela Zahar Editores e que, se não me engano, tinha um título óbvio - ‘‘Carnaval do Rio’’.
Segundo o autor, Carlos Cachaça não pôs uma só gota de aguardente na boca, no distante ano de 1938, por integrar um grupo de voluntários, portadores de amigdalite crônica, para a administração, em regime experimental, dos então primeiros antibióticos. Lembro com exatidão o ano, não por anotações, mas por estar associado, não sei porque diabos, com a famigerada Revolta Integralista, um episódio igualmente histórico...
O carnaval tinha tão pouca expressão, para o país oficial, naqueles anos, que Manguinhos marcou uma das (inúmeras) experiências com o medicamento justamente para uma sexta-feira-gorda.
Comprometer-se com uma experiência dessa natureza, aquele tempo, era assim como um dever cívico e improrrogável.
Carlos Cachaça não prorrogou, ganhou o carnaval e curou-se da amigdalite.
Histórias gays
Luiza Toldo foi uma célebre cafetina do bairro boêmio da Lapa, no Rio dos anos quarentas. Chegou a ser caricaturizada nas revistas musicais de Walter Pinto, na Praça Tiradentes.
Gorda e oxigenada, Toldo era, além disso, muito alta, o que a tornava imensa, e daí o apelido.
Relata a crônica que Luiza Toldo organizou o primeiro baile gay do Rio de Janeiro, em 1932, outro ano imediatamente ligado a uma revolução militar, a dos paulistas, que fez tremer os alicerces do Estado Getulista.
Sabem onde?
No amplo apartamento, em Copacabana, de um figurão da República, o senador Elianto Abreu, da Bahia. Não porque o senador fosse gay (palavra, aliás, inexistente ao tempo em que se dá esta história), mas porque sua esposa, sendo amiga afetuosa, e ‘‘madrinha’’, do mordomo, consentiu em que a festa ali fosse realizada, mesmo porque ela e o marido viajariam para a Europa no carnaval daquele ano.
Quem pesquisa essas bizarrias arqueológicas é o meu amigo, Edgard Ribeiro, carnavalesco em Juiz de Fora, contribuidor do projeto original relatado no início destas linhas, e sobretudo um apaixonado por pioneiros e pioneiras.
O nome do mordomo?
Edgard não sabe e diz que não morrerá sem encontrá-lo.
Eu, por mim, encerrava o assunto - chamava o mordomo de Clóvis. Ou tirava o mordomo da história.
Chaplin & Garbo
Ao tempo em que nosso carnaval atraía estrelas de primeiríssima grandeza do jet set internacional, Charles Chaplin chegou a marcar uma viagem para o Rio de Janeiro. Ardilosas maquinações diplomáticas do eterno embaixador de Hollywood, no Brasil, Harry Stone, foram as responsáveis pela quase-viagem.
O Carnaval seria o de 1949, mas Chaplin, por razões até hoje inescrutáveis, ‘‘desapareceu’’, por uma semana, do Planeta.
Justamente a semana em que, no Brasil, em feverê, tem carná...
Drummond dedicou uma de suas crônicas, naquele ano, ao tema, só que ‘‘trocando’’ Chaplin por Greta Garbo.
E mais - inventando, em sua coluna do ‘‘Correio da Manh㒒, na quarta-feira (de cinzas) de 13 de fevereiro de 1949, que o maior acontecimento daquele ano tinha sido a visita de Greta Garbo ao nosso país - absolutamente incógnita, atrás de muitas máscaras, os três dias de folia.
Só para o poeta, de longe, numa das ruas do Rio, Drummond assegurava, ela tirou a máscara de monstro, e - fino sortilégio - piscou devagar uns grandes olhos molhados.

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