Ovídio
Tragado pelo buraco negro de quase vinte séculos, paira, até hoje, denso e nebuloso mistério sobre as razões que levaram o imperador Augusto a exilar em Timi, na distante Romênia, o delicado Ovídio.
Poeta supremo, autor, entre outros, das ‘‘Metamorfoses’’, e um dos fundadores da poesia universal, Publius Ovidius Naso é a personificação exemplar do poeta traído por sua pátria. De 8 a 18 d. C., data de sua morte, Ovídio clama e suplica pelo retorno ao coração do Império, não obtendo nada além que silêncios como respostas. E vilezas.
Quase torturante supor este exílio de sangue imposto ao mestre de ‘‘A Arte de Amar’’ que a tudo se dispõe, e até se humilha, desde que lhe autorizem a volta a Roma, o que acabará não acontecendo nunca.
É um pedinte de seu país natal, um mendigo dessa religião em que se constituem as nacionalidades. Inúmeras são as versões para explicar o fato, mas nenhuma convence mais do que aquela segundo a qual Ovídio viu-se obrigado a deixar Roma pelo simples fato de que sonhara o sonho de Augusto de assassinar Caius de Éfeso.
A crer nesta interpretação, que começou a circular na Renascença, o erro de Ovídio foi o de ter escrito em hexâmetros perfeitos o elogio fúnebre do medíocre Caius de Éfeso - dez dias antes que uma dose mortal de veneno, misturada ao vinho, lhe fizesse tombar o corpanzil - de soldado aposentado em favor da coisa pública - no grande leito onde libava com duas escravas egípcias e um efebo de Creta.
Acrescenta a crônica quinhentista que o efebo chamava-se Argos Eleotherio, filho de Landros e Milena e era de uma beleza tão fulgurante que acabou restando à História a suspeita - em todos os sentidos malévola - de que Augusto, o Grande, estava mesmo era loucamente apaixonado por ele que, óbvio, foi quem ofereceu o vinho a Caius de Éfeso - escondida, ao fundo da taça de bronze, diminuta, intensa e maligna coroa de azinhavre.

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