Wilson Bueno
Das muitas lembranças que carrego de meus mortos, algumas quase impossível esquecer: a invocação, por exemplo, do riso dissimulado do escritor João Antônio, entregozando nos dentes, entre o irônico e o pânico, a rapinagem no sanatório das Letras tupiniquins, constituía mesmo uma autêntica invocação pois nem riso era ainda e já contagiava o ambiente de comicidade incontrolável, nervosa e um pouco patética. Ria-se mais do riso que se insinuava do que da piada propriamente dita, e ria-se muito, e quanto mais se ria, mais compulsivo o riso ficava uma algaravia de sons irrefreáveis.
O meu compadre Manoel Wambier, jornalista, professor universitário, um curioso da eletrônica, chegou a montar, sozinho, em meticulosos dez anos, um magnífico órgão que, a rigor, nunca funcionou. Peça por peça, nota a nota, assisti ao saudoso Maneco ir compondo a engenhoca, sempre excessiva nos minúsculos apartamentos em que costumava morar na zona sul do Rio.
Não havia visita de domingo que não se sentasse à banqueta do órgão - com maior ou menor disposição para arrancar do teclado em progresso, um som assim grave e profundo, quiçá barroco e Bach. A todos, Wambier sugeria que imaginassem como poderia ser a música, com a imaginação sendo a mãe de toda a beleza.
Até o dia em que o baixinho Ludovico Almada, um português de luzidia calva e menos de 1 metro e 40, bêbado modo cozido, sentado à banqueta pelo brutamontes Guerra, o motoqueiro, depois de instruído por Manoel, pediu-nos a todos que silenciássemos - ouvia o som, e coisa mais espantosa!, não era bem som de órgão o som que o órgão fazia... Ao que Wambier retrucara, com impagável verve - Quem disse que isso aí é um órgão? Dependendo da pessoa pode ser até um violino.
Ludovico Almada, a mãozinha em concha na orelha, o cotovelo firmando-se, só Deus sabe como, no teclado, não teve dúvidas - Não, não é um violino! O que oiço é um cantor de óperas com os bofes todos de fora.
E teria caído da banqueta não fosse o pronto braço de Manoel Wambier a ampará-lo.
A argentina Lina Sormani tinha os olhos azuis. Poeta sensível, era correspondente do jornal La Nación, no Rio de Janeiro dos anos setentas. Não entendi até hoje a sua morte precoce, fulminada aos trinta e dois anos por um enfarte. Era uma mulher bonita e impetuosa e dela me ficaram, entre muitas coisas, as suas quase impossíveis saladas de aspargo - desde então incorporadas a Lina como se nunca tivessem existido antes dela.
Aqui, na Jamaica ou em Cingapura, ante a visão do tenro broto, me vem à memória os olhos azuis de Lina Sormani e, mais que eles, as suas mãos - pequenas, ágeis e um pouco trêmulas, na cozinha apertada do apartamentozinho em Botafogo, compondo como quem compõe um desenho, ou uma sonata, as magníficas saladas - numa coroa de rodelas de palmito alternadas, à volta toda da travessa, com os micro-tomates da Indonésia, os aspargos vinham depois e forravam o fundo da travessa, as compridas hastes igual uma grade, umas cruzadas nas outras, minuciosas; e como se insuficiente, Lina tornava com outra fileira (de aspargos) formando assim uma que espécie de rendilhado sobre o qual espargia a cebolinha picada; e havia ainda o arroz, a mousse, gelada, de frango, e os sucos de graviola, ao tempo em que existiam graviolas no Rio de Janeiro.
O que a memória retém contudo são os aspargos - na travessa, xadrez úmido e de cor pérola, que eu devorava com os olhos antes de o fazê-lo com os dentes e toda a alma - macios, tenros, a doce lembrança de uma outra memória ainda mais longa e esquiva á- a memória da memória de um bistrô francês entrevisto nos contos de Baudelaire, muito antes de Lina Sormani impor a eles, aos aspargos, de modo irreversível, o seu selo e a sua marca e um pouco também, por que não?, de sua grandeza.
O que fica? Fica uma frase dita na tarde, a ciência de Saturno, fica um jeito individuado de olhar e sorrir com o olhar, fica a mirada com que se flagra a manhã desandando os canaviais, os aturdidos de amor no mocó, fica uma paisagem incendiada de sonetos, um andado, certas quedas no abismo, a operância e o ofício, o grito de alarme e a confluência de Mercúrio, ficam todas as babuchas da Rússia, um horizonte de cães no céu que antecede as geadas, fica o mouro e o sonho e, quase como uma nuvem, fica a vida latejando, nas cordas da vida, a vida mesmo, esta suprema improbabilidade.





