Wilson Bueno
Ilustração: Douglas MayerTarde a vida nos prega uma cilada singela, caro companheiro que vem inventando destas cronicações aqui obsessivas, um luxo que decididamente não possuem: de repente, não escrevemos mais para nós mesmos ou para a vaidade de um nome. E muito embora não abandonemos a singular órbita do próprio umbigo, no fundo são pra você estas mensagens, ainda que trôpegas, tristes, ainda que melancólicas ou descosidas.
Gosto de suas cartas e dos invariáveis bons dias. Gosto deste seu amor no escuro e de olhos fechados - sem preconceito, pela escritura miúda com que, rabiscador de papéis velhos, damos continuidade ao vezo antigo. Só esta dedicação já vale o alto risco do jogo em que mais de um de minha geração mergulhou - sem volta nem retorno. Mal ou bem-sucedidos? Não importa. O que vale é se a Religião, pedinte assídua de um Deus, suportou até aqui a entranhada Loucura. É ela que vale, a Religião, para quem cria, pinta, esculpe ou dança: uma crença de preferência aflita e pagã. Talvez por isso todo poeta, por mais alheado, católico ou budista, pareça ateu. Percebo, pelas cartas, que teus Anjos também incendeiam e nisto particularmente somos muito semelhantes.
Você, leitor quase-anônimo, que me indica outonos e invernos, o tempo das corticeiras, e assinala o escândalo das magnólias no escasso verão de nossa cidade, talvez não entenda onde arranjamos tanto assunto para cronicações às vezes tão óbvias, invariavelmente compulsivas. Mas é simples como olhar da janela o teu quintal provinciano. Há, só nele, assunto para toda uma vida e se você não for capaz de arrancar ao seu ar baldio, um soneto ou um haicai, ainda assim não desespere da poesia. Brotará, flor mansa, da própria falta de assunto. Há quem diga que viaje no vento.
Somos irremissivelmente líricos, todos, mesmo os ásperos, os abstratos e os arrogantes. Talvez seja a textura frágil da última Flor do Lácio, seus adjetivos, possessivos, conjunções, absestos e anacolutos, sua retórica, e sobretudo o jeito triste e desamparado que faz as cordas do teu coração vibrarem - por mais ácido - um izoneiro bolero corneador. A gente é assim mesma: um pouco vagau; um pouco tímida.
Olha, devotado leitor, temos feito do coração as tripas, para não talhar o seu café-com-leite, pelas manhãs, e se isto acontece com certa frequência inoportuna, a culpa não é nossa mas da vida e de seus tortos, do cotidiano e seus desmandos. Pergunte à precariedade dos dias e às armadilhas do Improvável. Indague desta lua-de-geada se viver não é um exercício cheio de arestas & fissuras. Por certo não te responderão, mas para bom entendedor, duas palavras bastam.
Quem agradece sou eu - por você que nos faz imaginar que ainda existam leitores como antigamente, donos desta paciência e devotamento infinitos à delicada arte de decifrar, com luneta ou microscópio, o que eventualmente possa camuflar-se entre uma linha e a que se segue. Nem sempre há segredos, companheiro. Mas, leitores vocacionais, é bom que os inventemos, mesmo quando não existam, e a escritura possa ser, na aventura de uma grande dor ou no assomo prosaico de um sorriso - a carne-viva; e o nervo exposto. Não que tenhamos chegado a resultados surpreendentes.
Agora que o silêncio põe cães no cio e a madrugada - mansa espaçonave - cintila no céu do subúrbio, alguma coisa na gente canta, reverbera, e acontece assim como uma fraternidade arbitrária que te põe no peito todos os homens e a humanidade inteira, e uma simpatia sem risos nos faz comuns.
Nem um homem é assim tão sozinho que não possa abrir um envelope.





