Em ‘‘As cidades invisíveis’’, de quem temos no Brasil inquietante tradução de Diogo Mainardi - pela qual o texto parece ondular como se escrito originalmente em português - a prosa ‘‘encantatória’’ de Italo Calvino põe na boca do viajante Marco Polo um conselho eterno ao imperador Kublai Khan: ‘‘De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas’’.
Desde que o homem, por capricho ou necessidade, agregou-se a elas, às cidades, é que elas impõem aos humanos o desafio não pequeno de seu mistério. Uma cidade não se conta pelo número de seus prédios, praças, obeliscos, avenidas e nem pelo número de pessoas que a habita. Uma cidade transcende à triviliadade dos detalhes urbanóides em que tentamos orquestrar a cidade na cidade, num esforço quase sempre inútil de organizar o inorganizável, de prender numa prancheta, para sempre imóvel, as expectativas (fluidicas) da paixão, do risco e do acaso.
Por exemplo, ao lembrar Zemrude, num breve texto, Calvino evoca essa ‘‘invisibilidade’’ que, a rigor, é a alma última e primeira das cidades, oculta transparência só sua e intransferível, o ‘‘corte’’ de uma atmosfera profunda:
‘‘É o humor de quem a olha que dá a forma à cidade de Zemrude. Quem passa assobiando, com o nariz empinado por causa do assobio, conhece-a de baixo para cima: parapeitos, cortinas ao vento, esguichos. Quem caminha com o queixo no peito, com as unhas fincadas nas palmas das mãos, cravará os olhos à altura do chão, dos córregos, das fossas, das redes de pesca, da papelada. Não se pode dizer que um aspecto da cidade seja mais verdadeiro do que o outro, porém ouve-se falar da Zemrude de cima sobretudo por parte de quem se recorda dela ao penetrar na Zemrude de baixo, percorrendo todos os dias as mesmas ruas e reencontrando de manhã o mau humor do dia anterior inscrustado ao pé dos muros. Cedo ou tarde chega o dia em que abaixamos o olhar para os tubos dos beirais e não conseguimos mais distingui-los da calçada. O caso inverso não é impossível, mas é mais raro: por isso, continuamos a andar pelas ruas de Zemrude com os olhos que agora escavam até as adegas, os alicerces, os poços’’.
Knut Hansum, poeta e dramaturgo norueguês, de quem não mais se fala e nem se ouve dizer, pôs em sua mítica Segelfoss, o ideal humano de uma (desusada) nobreza campônia, o que lhe valeu o Nobel de 1920 mas não a vitória sobre o enigma: a que servem as cidades dos homens? Para que atavios da metafísica o ‘‘humor’’ sibilino e sibilante dos burgos humanos de todos os tempos? Em que lado de sol e hibisco a réstia sobre a ponte, um telhado avançado de estrelas, o chafariz que conversa com a estátua equestre do herói?
‘‘Direito de cidade’’ é o que na história antiga se chamavam os direitos dos cidadãos para, em relação direta com a cidade e/ou Estado a que pertenciam, gozar determinados privilégios. Naquele tempo, como agora, uns mais, outros menos, embora a isso se chamasse ‘‘direito’’ e todos fôssemos, ainda uma vez, cidadãos... O que, para lembrar o velho e sempre atual Tucídides, a injustiça humana é vício incorrigível da ‘polis’ e, sem ela, os citadinos dificilmente haverão de encontrar um ideal aceitável de Harmonia.
A invariável concisão e imparcialidade que o fizeram o mais importante historiador da Antiguidade.
Cidades. Muitas. A minha e a sua, contemporâneo leitor. E as de todos os poetas. No Brasil, nenhuma melhor inscrita no imaginário fecundo da poesia brasileira quanto Itabira, Itabira do Mato Dentro, com suas tardes sem mulheres e nem horizontes do feiticeiro-inventor Carlos Drummond de Andrade. Difícil, mesmo para um poeta, ‘‘ser’’ de uma cidade como se inscrito em sua alma, e sobre isto nunca esquecerei Pedro Nava: só quem nasce em aldeia mistura-se à memória das cidades; ele mesmo, Nava, eximia-se da para ele desengraçada tarefa de ‘‘pertencer’’ a uma cidade, pois isto, dizia, não sem fina ironia, era para o Murilo (Mendes)...
Mas de todas, só há uma que fica, vibrando nas dobras de um sonho como se erigida de brisa e arrebatamento: a cidade que ora inventas, desprevenido leitor, sem saber que ela não existe e nem existirá nunca.
São desses fluidos e aéreas falas essa cidade inventada e cuja aragem pode que tanja as cordas de seu coração.

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