WILSON BUENO
Suas cartas. Serão cem, cento e cinquenta, quantas cartas serão estufando envelopes, sobrando pelas laterais da pasta de cartolina que o elástico mal contém ou na caixa de papelão criteriosamente amarrada pelo barbante encardido? Vinte anos de epistolagem nos andaram a vida vadia. E vinte anos não são vinte dias - diria o insopitável Acácio, nosso distinto Conselheiro.
Dos envelopes à mostra no escaninho da mesa, daqui distingo que dois deles trazem-lhe a caligrafia precisa, regular, de uma elegância sóbria e masculina. E como no aéreo do ar que nos move os dias você não existe mais, é igual se esta mensagem aqui fosse apenas a garrafa que lançada ao mar guarda para si o inenarrável mistério de seu destino.
Silenciado ainda pelo abrupto de sua morte horrível, por certo não sobreviveria à coragem de dar leitura a todas as letras de suas incontáveis remessas: aqui a notícia de um sol em Copacabana e o gingado das fêmeas de insinuante lascívia atravessando o verão; ali a digressão ressentida de um escritor brasileiro sem dinheiro para o cigarro ou o aluguel. Desta margem, o poeta dionisíaco em meio ao rebanho dos faunos ávidos; desta outra, o cristão primitivo ao sopé do morro de Bom Jesus do Matosinhos, em Congonhas do Campo, alejadinhando, alejadinhando. Em tudo, a sua marca - de fino artista, artesão do verbo em arabescos de gíria e sofreres vários, o jeito seu muitas vezes endemoinhado.
Quantas cartas. Quantos papéis. Difícil, e bem complicado, que uma amizade, separada pela geografia, se reconstrua assim, feito os homens de letras de antigamente, ao sabor da troca fraternal de missivas, livros, bilhetes, impressos, postais, poemas bêbados nas costas dos envelopes. Quase impossível tenha sido deste modo e feitio o jeito feliz que encontramos de manter acesa a chama de uma amizade nascida dez anos antes, na redação enfarada de uma editora da moda.
Só agora a chama se apaga num frio e breu que é além, muito além do que nos tenham separado as geografias, mesmo a mais larga e inóspita que é esta feita de um oceano inteiro. Nem ele, nem o Atlântico, nos calou a interlocução sem método, febril, cortante e lúcida, acossada. Talvez seja assim que escritores conversem á- longa e verticalmente. Não sei de outro modo que não a epistolagem para pôr no coração de um homem a humanidade inteira.
Houve a vez do riso guardado no envelope como uma surpresa; houve a hora triste da morte de nossos cães, os livros, as leituras vertiginosas dentro da noite inquieta, os pombos, as gaivotas nas pedras do Arpoador, as luas da Baviera tangendo telhados, rolando pelas esquinas frias.
Éramos em tudo tão possessos que nos entretrocávamos longos trechos dos russos, num jogo inventado por nós, e que se perguntava o nome do autor. Nem sempre acertávamos, confundindo Tchekhov com Gogol ou Pasternak com Tolstoi. Mas nos divertíamos feito dois meninos grandes perguntando ao mistério da arte com que mão - de demoníaca intensidade - Machado de Assis a todos era exemplarmente superior, com o seu talento anglo-franco-luso-mulato e a marca insana de se constituir no maior escritor do Brasil. O que, claro, entre outras, nunca conseguimos nos responder.
Retiro do escaninho da mesa a que talvez seja a última carta. Está ligeiramente mais pesada do que as cartas costumam pesar o que faz a curiosidade se sobrepor ao luto e, enfiando a mão envelope adentro, puxo dali, várias vezes dobrado, o poema inédito de brincante alegoria. É um poema sobre a arte de viver, arte andarilha e bailarina, arte do vôo e do mel.
Mas não há poema em todo o mundo capaz de reviver a sua figura de artista obsessivo, vivendo para a literatura, dia e noite, noite e dia, de um modo suicida e quase psicótico. Nenhum poema o fará sentar-se de novo no boteco fedido de Barata Ribeiro com Siqueira Campos e depois da quinta cachaça babar a sua baba de rancor e nojo contra os desmandos do país em nós como uma praga. Ô vida pisada a cacos de cristal!
Nada, ninguém. A caixa de correspondência nunca mais guardará pelas manhãs azuis de Curitiba novo aerograma onde, no mínimo, por sua caligrafia, errante vagava o vôo das gaivotas do céu.





