Wilson Bueno
Conta a lenda hebraica, vertida para o inglês pelo romeno Ilya Arnald, que antes de tudo era o Princípio e no Princípio já existia a culpa, assim como a luz gera a luz e a treva tão somente a treva. O judaico-cristianismo nada mais fez do que apropriar-se desta rica tradição com o fim - escuso - que todos conhecemos, de salvar o homem de si mesmo. Como se isto fosse possível, ou necessário.
Sábios e doutores, bruxos e feiticeiros vêm buscando, não sem esforçados exercícios, entender o perverso mecanismo do chamado pecado original pelo qual estamos desde sempre condenados. Não há salvação para além de nossa própria circunstância. É nela, aí sim, que nos salvamos de nós mesmos.
Tal reflexão vem a propósito das notícias dando conta de que o judeu norte-americano Michael Holieberg, de 67 anos, morreu dentro do cinema, fulminado por um infarto, enquanto assistia às de resto horríveis cenas mostradas num documentário sobre o holocausto. Que ele, judeu, não tenha suportado é o que intriga e incomoda, indaga e quase não encontra explicação.
Este século, sabemos, dos mais sanguinários da História humana, é um filme de horror, classe B, se olhadas, mais de perto, a crueldade do homem contra a própria espécie, a vigência de Tanatos como a uma praga insistente refletida não só nas duas grandes guerras, mas nas perseguições de toda ordem - políticas, religiosas, raciais, sexuais - em que se empenharam, e se empenham, os Estados modernos.
Mas que Michael Holieberg tenha morrido numa sessão vespertina de cinema, em Nova Iorque, causa espanto. Fosse um general ariano na lista do Mossad ou do FBI, poderíamos encarar o fato como natural. Culpado e humilhado por seus próprios crimes, morrer aí, fulminado por um infarto, seria da ordem natural da coisas. Mas generais arianos se não morreram durante as atrocidades amplamente documentadas pela História, por que morreriam agora, passado tanto tempo?
A indagação é quase ingênua não embutisse dentro de seu próprio desejo de resposta, ela mesma, a ancestral culpa humana, pela qual nos sentimos absolutamente condenados por crimes que não cometemos, mas que é como se os tivéssemos cometido. Com requintes de crueldade que só a imaginação culposa será capaz. Mesmo quando somos nós mesmos as vítimas.
Isto lembra outra estória, esta do terreno da ficção, mas que convém anotar aqui, a título mais de digressão do que de complemento: está nas Mil e Uma Noites, este tesouro inventivo inesgotável, que o príncipe Omar El-Rachid, ao ver seu filho assassinado por tribos rivais, só logrou encontrar o homicida, trinta anos depois de uma caçada cruenta e desesperada pelo deserto.
Ao tê-lo frente a frente, o príncipe Omar não o matou, como todos esperavam, mas se fez assassinar por ele, não sem antes gritar, alto e bom som o seu grito primal de pai finalmente vingado pela morte do filho: Mata-me, ou eu o matarei, assassino de meu filho! Agora sim, estou vingado: duvido que esqueças um dia, a condenação com que estes meus olhos o condenam.
E não foi diferente a previsão - o assassino, um certo Amir, não desejando ser morto pelo pai vingador, matou-o com um só golpe de sua adaga, mas, dizem os contos das Mil e Uma Noites, anda até hoje, arrastando-se pelo deserto, ferido e suplicando por perdão, que ninguém, absolutamente ninguém poderá lhe conceder, a não ser o príncipe Omar El-Rachid, por ele mesmo assassinado.
Ao provar do fruto proibido, nossos pais primevos, Adão e Eva, lançaram-nos num mar de obscuridade e sofrimento sem conta. Expulsos do Paraíso inicial (que Lacan, num texto conhecido, preferiu chamar inercial), caímos mesmo na vida. E é esta que conta, apesar do século e das infâmias deste século cujo fim já se insinua.
Morrer numa sessão de cinema, como o judeu nova-iorquino, por melhor que sejam as explicações pelas quais vítimas sucumbem frente a seus carrascos, continua insuficiente. É no âmago de nós mesmos que mora a culpa nossa de cada dia, assim como um defeito de raiz, o grito com que o homem ousou, no Gênese, gritar contra Deus.
Se assim, livrai-nos, Senhor, de nosso próprio látego.





