Douglas MayerSaber a idade
da Terra é
sonho sonhado
por ShivaHá uma lenda sânscrita, reinterpretada pelo escritor Jorge Luis Borges, segundo a qual o Novo Ano é uma invenção de Shiva para contar a idade da Terra. No começo, ainda segundo a lenda, não havia a sucessão dos dias, vivendo os homens ao abrigo de Visnu, ‘‘repousados Nele como se fora um chão de terra e folhas’’. Curioso observar, neste ponto, que a fé dos seguidores de Shiva prontamente se encontra com a dos que devotam sua crença ao Deus judaico-cristão, pelo qual, depois da maçã, Eva e a serpente, fomos expulsos do paraíso - também este, com a mesma intensidade dos ‘‘nirvanares’’ hindus, sem dias nem meses, décadas, séculos ou milênios.
Sem o Tempo, em última análise, esse bicho que anda e anda e que, andando sempre, apesar de absolutamente invisível, não deixa de existir nunca e, existindo de uma forma que não vemos nem tocamos, a rigor, para a lenda sânscrita, nunca existiu. Parece um daqueles bons paradoxos cultivados pelo grego antigo - outra ‘‘coincidência’’ a atar pontos dispersos da aparentemente diversa História humana. Nova constatação, ainda, de que o tempo e o espaço não alteram a ‘‘biografia’’ da aventura terrena. Somos todos de mesma essência e modo: ao pé de um cálice de menta em Siracusa ou na fronteira entre o Ganges e o Letes.
Que o Tempo seja a projeção melancólica daquela ‘‘marcha das Horas’’ que, com superlativo encanto, dança Helderlin nos versos ‘‘contra’’ os quais formula a ‘‘estética’’ de seu próprio fim, num delírio, sabemos, até hoje inescrutável, pois que o Tempo seja este relógio que nos devora lenta e inapelavelmente, não há - mais - dúvidas. Embora sobrem em torno do tema, ao longo de toda nossa história babuína (ainda hoje babuína...), coceiras e indagações, questões e agruras.
Na lenda sânscrita, contada por Borges, não sabendo de que maneira ordenar a idade do Mundo, Shiva inventa, primeiro, o Ano Novo Lunar, ainda hoje comemorado entre os asiáticos, ao qual chegamos depois da contagem de quase quatrocentas luas. E - mistério gozoso - ao começar a contagem dos anos, Shiva redecifra o Eterno pois só em oposição à nossa precariedade é que se funda o céu imortal dos hindus. O raciocínio é tão ousado quanto intrigante: não existisse o falho minuto no qual intentamos vigir, inexistiria, em igual tom e intensidade, a eternidade, o não-Tempo do ‘‘Tempo Inteiro’’.
Foi preciso que tivéssemos perdido o ‘‘paraíso’’ judaico-cristão ou o ‘‘não-Tempo’’ dos hindus para que inventássemos a morte, a passagem terrena, horrores e epifanias, misérias e a rarefeita altura com que temos de vencer este vero e fero vale de lágrimas. Por um descuido de Shiva? Ou só por um seu capricho, pelo qual, desconhecendo a idade da Terra, o desejou simplesmente, sem se importar com as consequências?
É Gilles Ferraux, igualmente citado por Borges, num pequeno opúsculo sobre a Índia, quem esclarece de forma cristalina: ‘‘Para os indianos, dormir em Visnu, ‘como num chão de terra e folhas’, só é possível depois de esforçados exercícios. A ética do merecimento, se possível chamá-la assim, é invariavelmente uma ética de sacrifícios. Ao esforço sucede a compensação; à penúria sobrevém a abundância. Maniqueísmo que sugere e diz da Índia e dos indianos muito mais do que tudo o que já se escreveu sobre o país’’.
Mas por que o reino do tempo como um martírio? - poderia perguntar, intrigado, o leitor. Pelo simples fato de que - e é Borges quem responde - sem ele, sem o tempo como um martírio, a superstição humana não vingaria: ‘‘Acaso el manancial está em mí. Acaso de mi sombra surgen, fatales e ilusorios, los días.’’
A crer na (vã) especulação humana, terça-feira que vem, por exemplo, é a última terça-feira de nosso fatigado planeta, neste ano de mil novecentos e noventa e sete, mesmo porque jamais passará por nós a mesma e heraclitiana terça-feira, e não sendo em nada comum a esta, que terça-feira será aquela outra, a próxima, assim construída de argúcia e arrebatamento que é a forma como Shiva relembra de Visnu a carne aérea dos dias?
Saber a idade da Terra é sonho sonhado por Shiva com a delicadeza de um deus menino e a tirana imposição de que sejamos capazes, ainda uma vez, de retornar ao peito de Visnu assim como quem recosta - e dorme - sobre um chão de terra e folhas.

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