Wilson Bueno
O Calvário, de Paul GauguinTodos os dezembros em que renasço, sei que renasço cândido, feito uma borboleta de Deus. Usam-me e abusam-me da imagem. Torcem e distorcem a parábola da minha vida. Vendem, trocam, pechincham e comerciam em meu nome, os homens de pouca fé.
Não fui nem serei nunca esta coisa oca com que me traficam filisteus e armênios, gregos e americanos. Esquecem a hora atônita, o jogo bruto em que, aos 12 anos, repudiando pai e mãe, fui capaz de meu primeiro desassombro - o desassombro do saber frente aos saberes coagulados de minha época, encarnados nos sumos sacerdotes do templo em Jerusalém. Não tive medo e assumi, apesar da pouca idade, uma ousadia de raiz. Que saber era aquele que desconhecia as grandezas de Deus? Tive a coragem de desafiá-los como quem não teme, da Vida, o risco de viver.
E aí, segredo, não revelado em nenhum testamento - dezoito anos perambulei, vagabundo, pela terra dos homens, ensinando e aprendendo, de novo ensinando e ainda uma vez aprendendo, aqui, ali, na Índia, na China, para lá do Industão. Soube, então, o que já sabia desde o começo - que não há lugar onde se sofra mais que aqui neste terceiro planeta depois do Sol, vero vale de lágrimas, no qual a humanidade aturdida, se entrecome, se unha e se cospe.
Querem-me inocente como os pássaros do céu, mas esquecem a minha lição mais simples que é uma lição só de passagem - a lição de quem desejou para os humanos, bem além que a vida média e a biografia pálida do berço ao túmulo, a mediocridade insuportável de quem, nascido para luzir, ainda assim prefere o encolho e a dúvida, o temor e o tremor, a timidez mais vaidosa.
Não lembram de mim, cão em fúria, expulsando os vendilhões do templo? Neutralizam, em nome de quê, a santa raiva, alta e indignada, tocada de ácida aspereza? Desejam-me roliço e catito, querubim na manjedoura, e ignoram o vagido que me nasce do peito e é assim construído de gritos e impropérios. A aventura humana não pode se constituir ao largo do ímpeto e do destemor mais desabrido. Não seria humana a natureza limitada desta aventura; seria só um arremedo de fé.
Estar ciente do antes e do depois, do durante e de todas as quedas futuras, não fez de mim só um Deus; colocou-me homem frente à exata natureza da coragem, esta virtude tão escassa e tão prosaicamente confundida com o que há de pior na espécie - a agressão e a arrogância.
Coragem é o que a Vida quer de vós, mas coragem olímpica, coragem da ciência de Deus dentro feito uma vertigem. Soube, pois, desde o começo, de todos os recomeços que haveriam de me marcar a passagem entre vós, e se alguma vez hesitei, esta foi uma vez tão abissal que já nem sei mais se vez era.
Em nenhuma circunstância, de minha boca, a palavra covardia. Nem uma só ocasião vos conclamei à pusilanimidade, ao gesto baixo e encolhido. Não, quis-me e vos quero a graça limpa do movimento que afirma e expande, avança e não recua. Sois apenas humanos e é nisto que reside toda a vossa extraordinária grandeza, e o deslimite vosso feito uma orquídea.
Um mil novecentos e noventa e sete anos depois, venho aqui para vos dizer que renasço; sim, renasço, de todos os lados de mim, feito as manhãs da Galiléia sob este mesmo e vasto céu, tão vasto que, mais um pouco, será capaz de vos perguntar, até onde pode o vôo do olhar humano? E, se assim, tão sem limite, o que pode o homem e as mãos de um homem nos desertos dias de agora?
Talvez eu pudesse vos responder, só com uma palavra, que é a medida de todas as outras e, possivelmente, a sua mais exata referência - a gasta e empobrecida palavra Amor, que é já em si coragem e desassombro, ímpeto, e muita que vez, destemperada ousadia.





