Wilson Bueno
Flaubert, nas Tentações de Santo Antão, nos apresenta o catoblepas, curiosíssimo monstro da zoologia fantástica, lembrado também por Jorge Luis Borges, em um de seus bestiários, onde faz questão de nos dar do animal a etimologia. Catoblepas que dizer, em grego, aquele que olha para baixo.
Se não fosse por esta circunstância, o catoblepas acabaria com o gênero humano, já que é impossível ser por ele olhado sem que nos sobrevenha a morte imediata.
Durante muitos séculos acreditou-se que este animal, em todos os sentidos enigmático, guardasse atrás de sua extrema feiúra, uma generosidade de raiz - arrastando a pesada testa no chão, coberta por espessa e ampla crina, ferindo-a muitas vezes, guardava-se de todo e qualquer ímpeto, temeroso do poder - letal - de seus olhos.
Isto até que uma bela tarde, nos confins da Etiópia, junto às fontes do Nilo, seu habitat natural, o catoblepas escapa, e juntando-se a um rebanho de cabras, cruza com uma delas e morre a pauladas pelo dono da fazenda.
Alguns meses depois, assim que o fruto de sua espécie nasce sob a cândida forma de um cabritinho maltês, uma a uma vão morrendo todas as cabras, depois os bois, os cavalos, os porcos, todos os cães, todos os gatos e todas as galinhas. A seguir, os pássaros, os corvos, os ratos...
Conclui a lenda que só um bicho escapou ileso do catoblepas cruzado em cabra: o homem, este ser melancólico, coberto de pêlos e olhando o morticínio dos animais como uma fatalidade necessária ao triunfo da sua espécie.
E é ele mesmo quem, por sua vez, haverá de cruzar com o monstro híbrido, recriando o catoblepas original - aquele, de novo, de medonha e emaranhada crina a lhe esconder os olhos, e que os prefere assim, baixos, arrastados ao chão, a congelar na morte horrível um só homem ou mulher sobre a face da Terra.O KWIUVÉ





