Com menos de três meses chegou ao quintal modesto, negro de um negro quase azul, doberman de estirpe e pedigree, o cotoco de rabo inquieto, as orelhinhas em pé. Dei-lhe o nome de Diego, em homenagem ao muralista mexicano de todas as glórias, Diego Rivera, mas por consenso e hábito, acabou ficando mesmo ‘‘cachórri’’ - errância índia e piá. Safado, matreiro, cachórri, sim, por todos os títulos e gracejos, filhote indomável.
Os seus excessos e balbúrdias, escavações e saltitâncias, alvoroçaram o silêncio da família.
Da janela do escritório, por doze anos eu lhe vigiei a vida vadia, andante, ao saltos e corcoveios, mimos, guinchos de pura chantagem, latidos longos e às vezes pavorosos, de um grave insistente e demolidor. Cachórri.
Com ele bati os caminhos do arrabalde, muita vez sem saber quem de nós é que ia na coleira, tamanho empenho ele punha no trotar, um andado marchador, príncipe, atento de uma atenção navalha, até do ar ele cuidava e, através dos olhos dele, eu entendia - a brisa lhe contava coisas que nem sequer a tarde conseguia imaginar.
Que outras paisagens ardiam-lhe nos olhos estrelados, enquanto seguia, o pescoço firme e alto, as orelhas em pé? Então é que, impávido, erguendo a perna, ele sonoro mijava ao poste ou sobre a touceira à boca de um barranco e o mundo inteiro como que mijava com ele. A tarde vibrava ao sol.
Nas férias da família, ao menos por dois dias negava-se a comer; batido de banzo aquietava-se na casinha azul e branca que lhe mandei construir nos fundos do quintal, e como que ignorava o cão que era - buliçoso e insistente, elétrico e vigilante indomável, guardião. A muito custo retomava a rotina, e era uma alegria perceber-lhe de novo o ímpeto e o desassombro.
Doze anos olhou-me desde o quintal com seu olhar de um negro brilhante e expressivo como se morasse nele o mistério profundo de sua natureza de cão. Uma que outra vez, pura epifania, os beirais da casa refletiam nele, em seu negro olhar, igual que um espelho que a vida pusesse debaixo do céu. Doze anos! Para que tanto, meu Deus?
Agora ele não era mais o cão insolente das madrugadas do subúrbio, vigiador; agora ele não era nem a sombra do que foi - vitimado por uma displasia, o doberman Diego entristeceu. E, a cada dia mais triste e melancólico, voltou à Clínica São Bernardo, ali mesmo onde, com três meses, recebera o primeiro vermífugo e os primeiros cuidados de Ézio, o veterinário fiel.
Sozinho e cachorro, fechei a janela e desliguei o computador. Mesmo assim, o sofrimento não foi menor - como ouvir o silêncio aterrado da manhã desabada pelos quintais? Como suportar a tarde, e as noites longas como suportá-las, sem a inquietação muita vez enervante de seu latido incansável? Pode um homem viver sem o seu cão?
Na clínica foi nem que eu tivesse deixado um pedaço de mim.
Lembro algumas coisas e é como se lembrasse todas de uma só vez: o dia em que escapou para a rua e em que quanto mais tentávamos capturá-lo mais longe levava a família, numa perseguição à qual se somaram vizinhos e voluntários, numa pândega neo-realista entre o pastelão e o drama aflito, solidário, com que o subúrbio muita vez vos abraça; o modo como costumava enredar-nos levantando o corpo inteiro, e, em pé, prendendo-nos entre os dois braços contra a parede - inútil querer escapar, o jogo era esse e a fuga ficava de todo impossível; a bola nos dentes, só devolvia se lhe piscassem uns olhos cúmplices, de ordinário, os meus.
Doze anos andou comigo a sua cara de cão. Aqui um boteco ao crepúsculo, ali o parque e o jardim, a grama e o rio fedorento que nos corta o bairro em dois. Doze anos escutou-me o uivo de animal atônito frente à vida e à exasperação de viver; as noites nossas, de ambos os dois - ele do lado de lá da janela; eu aqui, neste canil. Doze réveillons e doze natais, três copas do mundo de futebol, alguns presidentes, três governadores, muita mágoa e muita água, vez que em vez a nossa alucinada alegria, uns e outros, aqueles e aquelas passaram-nos pela vida andeja a nos deixar, aos dois, a marca impressa.
Agora que, morto por uma dose letal de anestésico, e livre de toda dor, o enterram nos fundos da clínica, o que é ali honraria dedicada a pouquíssimos animais, desaba sob a tarde imensa um silêncio que dá nojo. A janela fechada, ainda assim escuto o rumor que é só o do vento nas folhas levantadas furiosas do chão.
Ameaça uma desusada tempestade. Corro para fora da casa, na tarefa urgente de salvar da chuva as roupas do varal.
Na rua, por entre as grades do jardim, ao ver, o coração estremece: longo e safado, a língua quase no chão, temeroso da chuva que já começa, e dos trovões, serelepe e mandril - conduzido por um menino - ligeiro e fulo, cruza a calçada um filhote de bassê.

mockup